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Publicado em: 29/07/2010

 

Muitas pessoas não imaginam um aclamado desenhista brasileiro no mercado norte-americano que já trabalhou com a Marvel e DC Comics, reconhecido mundialmente por desenhar a Mulher-Maravilha, se encontra bem pertinho de nós. Paraibano, ou melhor, campinense, filho do artista e jornalista Deodato Borges, Mike Deodato Jr. é um profissional no universo dos quadrinhos e ao lado de nomes como Will Eisner e Burne Hogart, trazem a nós mais realidade aos traços de nossos super-heróis prediletos. E o Fique Ligado, em parceria com o Studio Made in PB, teve o prazer de conversar com o quadrinista famoso pelo domínio claro-escuro, seja em preto-e-branco ou colorido. Confira a entrevista em um especial o qual será dividido em três etapas:

 

 

Mike Deodato Jr

 


  1. Deodato fala um pouco do começo de sua carreira e se você imaginava obter esse sucesso tão grande no universo americano dos quadrinhos.

Eu comecei fazendo Fanzine e colocava nas bancas. Ninguém comprava, mas continuava desenhando, publicava revista de amigo meu, enfim, como todo mundo começa. Eu sempre soube que iria viver de quadrinhos, só não sabia quando. Passei dez anos tentando viver dos quadrinhos no Brasil e não deu certo por que até hoje é muito difícil trabalhar neste setor por aqui. Daí foi quando adquiri certo nome e uma empresa de São Paulo decidiu representar o desenhista brasileiro no exterior e pediram para eu fazer uma historinha. Soube ainda que a DC Comics precisava de alguém para trabalhar com a Mulher-Maravilha e ninguém queria fazer por que vendia pouco. Resolvi fazer duas páginas de amostra, o editor gostou e pronto.

 

      2.    Como foi a participação de seu pai na sua carreira?

Ele criou as Aventuras do Flama no ano em que nasci por coincidência e lançou a revista. O personagem fazia muito sucesso nas novelas no rádio. Ele sempre gostou de gibi, desenhava e escrevia também. Acredito que se ele tivesse tido a chance que eu tive, seria o Frank Miller de hoje, por que ele é muito criativo. Ele comprava um monte de gibi para mim, eu pedia para ele desenhar, ele me ensinava e corrigia. Herdei algum talento que tinha e também tive o incentivo dele para poder continuar desenhando. As primeiras revistas que fiz, ele patrocinou ou arrumou patrocínio. Todo o apoio que podia me dar ele me deu. Primeiro o tenho como exemplo de artista e depois como pai me incentivando, então, devo tudo a ele.

 

 

Deodato em ação

 

 

      3.    Quais recursos tecnológicos atualmente você utiliza em seu trabalho?

O que eu puder usar de recurso para melhorar meu trabalho eu uso. Quando comecei nem se quer tinha uma mesa de luz, trabalhava numa escrivaninha, tirava o vidro do armário da cozinha e colocava uma luz feito um bocal e desenhava até quebrar.  Hoje, trabalho com uma mesa digital, desenho direto com essa canetinha, não precisa de papel e daqui mesmo já mando por e-mail ao editor. Permite ampliar o desenho e vejo no Photoshop os detalhes. Quando impresso, sai bastante detalhado, sem precisar de estar com a lupa. Na folha existe um limite para que possa ver, na digital não.

 

      4. Quais os pontos positivos e negativos deste recurso tecnológico?

A parte ruim é que não tenho mais o original que seria outra fonte de renda para o desenhista. Tem colecionadores de artes que adoram originais. Mas, em prol da arte sair melhor, de ganhar mais tempo, produzir sem pressa, prefiro a mesa digital. O resto é desenhar, por que, você só ganha uma etapa, mas, tem que desenhar e ter imaginação. Não é como o desenho em 3D que você cria o boneco e só sai operando. Há a necessidade de fazer passo a passo, porém com algumas facilidades, por exemplo, o traço não precisa fazer com a régua, posso pegar daqui mesmo. São só alguns atalhos para realizar o trabalho melhor.

 

 

Deodato em ação (2)

 

 

      5. Como é o seu processo de criação e suas etapas de trabalho?

Eu recebo o roteiro, leio inteirinho para sentir a estória e ficar animado. Depois leio a segunda vez, e já vou fazendo os desenhos ao lado do papel para ter uma ideia da quantidade dos quadrinhos, sua distribuição, a posição dos personagens e quantos balões por cada quadrinho, bem rústico mesmo. Daí faço o layout que apenas eu e o editor entende mesmo, pois, serve para seguir o roteiro. Vou finalizando ao mesmo tempo em que envio ao editor já sabendo que ele aprova. Tenho um pouco de liberdade. O importante é realizar um trabalho bem feito, cada coisa tem que ter seu significado, ou seja, ajudar na impressão que a trama deseja passar. Hoje tudo isso vem naturalmente.

 

      6. Qual o personagem que você trabalhou mais marcante?

A Mulher-Maravilha foi a minha primeira chance de fazer um trabalho grande, então queria me mostrar, que todo mundo me conhecesse, estava cheio de energia. Fiz uma personagem sexy, violenta deixando de ser boazinha bem como exigia o roteiro.  Isso juntou com minha gama por juventude e aprofundei nos detalhes e nas roupas. Eu gostei muito e me marcou por ser a primeira figura a qual fiquei conhecido. Na verdade nunca gostei da Mulher-Maravilha e de desenhar mulher, agora eu gosto. Meu negócio era desenhar monstros e bárbaros. Mas, sou um profissional, faço o melhor que puder com o que me dão.  

 

 

Mulher Maravilha por Deodato

 

 

      7. Fala um pouco da fase difícil que você enfrentou na sua carreira.

Quando fiz uns quatro ou cinco números de Batman, foi a fase em que estava em meio a decadência. Apareceram várias propostas e não sabia dizer não. Terminei trabalhando em quatro revistas por mês e a qualidade caiu. Entendi que tinha algo errado, sem gostar e insatisfeito com o que estava fazendo. Mudei de agente, decidi tomar conta da minha carreira e ficar conhecido pela minha qualidade e não quantidade. Realizo uma HQ por mês, tenho tempo para fazer minha ginástica, sair com os amigos e o melhor, voltei aquele amor pelos quadrinhos ao mesmo tempo em que minha carreira ressurgiu.  Foi uma época de muita experiência, até desenhos para site pornô eu fiz, mas, aprendi muito, o que tinha para desenhar, desenhei. Hoje, retornei ao patamar de antes.

 

PS. Não perca a parte 2 da entrevista com Deodato. O artista fala sobre os personagens que já trabalhou, próximos projetos, colegas de trabalho e seus ídolos.

 

 

Por Cibelle Ferraz

  • Comentários deste Artigo

Nome: Will Conrad
Comentário: Grande entrevista com um dos expoentes talentos nacionais e um grande amigo.

Nome: @_JJunior
Comentário: O melhor! fantástico os desenhos dele!

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