Por Ingrid Heckler
O que é a consciência? Certamente, as respostas variam, pois existem muitas definições e conceitos distribuídos entre as muitas ciências, criadas por nós. O homem constrói e desconstrói a si mesmo desde que o mundo existe, talvez um processo de autoconhecimento ou simplesmente uma tortura fascinante. Seja como for, paralelo a esta realidade histórica entra a ficção, a arte que por meio da representação revela as verdades mais intrínsecas do ser humano.

Então, talvez, a realidade apareça muitas vezes desfocada pelas ilusões que criamos, e quem melhor que o cinema para calibrar – ou distorcer de vez – essa visão e simular por meio de fantasias e efeitos fantásticos as decepções, alegrias, confusões e até as veridicidades dos fatos vividos? Afinal, as histórias contadas nos filmes são o espelho de diferentes níveis de realidades existentes, sejam das consciências ou dos atos praticados por nós.
Christopher Nolan, proposital ou não, parece ter sido infectado por um vírus poderoso que o consome, e como diz no seu mais novo filme, A Origem, é definido como “uma ideia, capaz de construir cidades ou destruir a mente de uma pessoa”. Parafraseado sua lógica diria que em seu idealismo, ele é obcecado por criar histórias que nos expõem, revelam nossas camadas internas, nos mostrando até onde podemos chegar. Basta observarmos outras produções realizadas por ele para comprovarmos essa teoria: Amnésia (2000), Insônia (2002), O Grande Truque (2006) e Cavaleiro das Trevas (2008). Todas de forma menos ou mais profunda trabalham com o poder do intelecto humano, sua capacidade de evoluir ou se destruir.

Em A Origem somos apresentados a uma equipe especialista em roubar informações contidas na mente das pessoas, para tanto ela invade seus sonhos. Há todo um estudo da vítima a ser atacada, sua vida, seus medos, ambições, tudo ajuda no momento desta submersão, em que cada membro do grupo desenvolve um papel importante no processo, ou seja, de criar um cenário e situações suficientemente convincentes para trazer a superfície a informação tão desejada.
De forma simples o filme em sua base possui uma estrutura já vista, no sentido da gangue que pretende realizar um grande golpe, isso porque, depois de alguns problemas a equipe é forçada a trabalhar dentro de um procedimento não muito usual, ao invés de retirar algo, eles terão de inserir uma ideia, de modo que ela cresça e se torne uma atitude a ser tomada por sua vítima.

O roteiro do longa - assinado também por Nolan - embora possua uma premissa conhecida consegue, mesmo depois de apresentar suas regras, desestruturar sua lógica e construir os imprevistos possíveis e impossíveis, afinal, não está se invadindo um banco e sim a mente de uma pessoa, e isso por si é um pouco mais complicado. Porém, não acredito que o filme seja de difícil entendimento, claro ele requer uma atenção maior que outros, mas sua trama é executada com eficiência e essa quebra do usual é que torna sua narrativa tensa e original.
Como a maior parte do cenário do filme reside nos sonhos, o trabalho de arte e efeitos assustam de tão bem feitos, aliais, ação é outro gênero que Nolan trabalha com excelência. Aqui somos presenteados com cenas memoráveis criando um surrealismo lindo, seja nos momentos preparatórios ou de ação. Uma sequência em especial, protagonizada pelo ator Joseph Gordon-Levitt ultrapassa belíssimamente todas as leis da física, um espetáculo.

O personagem principal aqui é Cobb, interpretado por Leonardo Di Caprio, chefe desta equipe. Ele embora seja extremamente competente no que faz, tem sido atormentado pela presença de sua mulher Mal, interpretada por Marion Cotillard. E recuso a me aprofundar mais sobre a trama, pois não quero revelar a graça ou não deste filme. A trilha de Hans Zimmer é poderosa e perfeita para aflorar a tensão necessária, um estilo parecido ao que foi feito em O Cavaleiro das Trevas, mas aqui ficou mais latente. Ainda no elenco temos Ellen Page, Cillian Murphy, Ken Watanabe, Michael Caine e Tom Berenger
Muitos têm comentado que o público não precisa se esforçar em achar um significado para essa história, apesar de ser uma experiência visual fascinante apresenta uma ideia rasa, devo respeitosamente discordar. Afinal, o filme fala sobre o que? Sonhos. E uma vez dentro deles o que se vive pode ser maravilhoso ou assustador, ter todo o sentido do mundo ou noção nenhuma.

É aí que reside a grande sacada de A Origem, que usa esta base para brincar com o consciente e subconsciente do expectador, pois o filme não mastiga suas ideias. Pois, se cada um possui uma forma de interpretar os fatos, a realidade, a trama não se dá ao trabalho de fechar suas pontas, muito pelo contrário, as deixa soltas e livres para que cada um as enxergue a sua maneira. Essa liberdade na construção da mensagem é o que torna fascinante esta produção.
Trailer do filme
É bem possível que muitos saiam de suas sessões aborrecidos e confusos ou totalmente deslumbrados, ou as várias combinações dessas possibilidades, isso porque assistir a filmes sempre confere uma experiência única, mas aqui ela se aprofunda. E devo dizer, mesmo com suas controvérsias A Origem cumpriu com maestria sua proposta e intenção.
Veja a galeria com várias imagens do filme aqui.
Já assistiu A Origem? O que achou?