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Por Andréia Barros

Publicado em: 19/08/2010

 

Biografia de Renato Russo, escrita pelo paraibano Carlos Marcelo, revela detalhes da vida do compositor e de sua relação conflituosa com a capital nacional – pedra fundamental na sua história e em sua personalidade

 

Carlos Marcelo

 

Brasília, anos 70. Uma cidade nova, oprimida por militares, mergulhada no vazio cultural e na sensação de inconformidade dos burgueses sem religião. Foi nesta atmosfera que surgiu um dos grandes mitos do rock brasileiro. O jovem e excêntrico Renato Manfredini Jr. se tornava Renato Russo, líder do Legião Urbana.

 

Embora nascido no Rio de Janeiro, Renato Russo viveu, essencialmente, sob o signo de Brasília. Ambos nasceram em 1960, foram marcados pela onipresença da Ditadura Militar e causaram bastante impacto à primeira vista. As trajetórias e as coinfluências entre a capital nacional e o compositor se tornam mais claras a partir do recém-lançado Renato Russo – O filho da revolução, escrito pelo jornalista paraibano radicado em Brasília Carlos Marcelo. Nas páginas do livro-reportagem, a influência do momento histórico na formação da juventude urbana brasileira é percorrida com pormenores mais do que detalhados da linda e tediosa Brasília. “Brasília passava por um período de grande efervescência cultural, com grande oferta de filmes, shows, a própria explosão do rock local como a primeira manifestação da arte brasiliense a alcançar repercussão nacional. E eu tive a sorte de acompanhar esse período primeiro como espectador, depois como jornalista”, contou Carlos Marcelo.

 

Brasília foi terreno fértil para as letras do músico. Além de ter retratado conflitos familiares e amorosos em suas canções, Renato Russo foi autor de hinos informais, como Que país é este. Por meio de sua música-atitude, cobrava da juventude mais do que uma indignação estagnada - queria ação, reação e revolução.   

 

Carlos Marcelo, de 39 anos, hoje editor-executivo do jornal Correio Braziliense, também bebeu da geração Coca-Cola e considera Renato “personagem emblemático”. Para contar a história do compositor, o jornalista mergulhou durante oito anos em uma pesquisa profunda e realizou uma centena de entrevistas com anônimos e famosos. Carlos descobriu, por exemplo, músicas inéditas, histórias nunca reveladas e a performance de um Renato doce, carinhoso, multifacetado, corajoso e muito inteligente.

 

Renato Russo – O filho da revolução, contudo, não entra em detalhes sobre a sexualidade do músico nem  sobre a morte dele em consequência da AIDS. Mas isso não faz tanta falta. O livro - de leitura deliciosa e, por vezes, instigante - deixa satisfeitos e muito emocionados fãs que acompanharam a trajetória conflitante deste trovador solitário e obstinado.

 

Juntar entrevistas, fatos históricos, somado à sua própria vivência da época. Como foi seu processo de criação do livro?

Carlos Marcelo: Tenho dez anos de diferença para o Renato - ele é de 1960, mesmo ano da inauguração de Brasília. Não vivi minha adolescência nos anos 1970, como ele - e, talvez exatamente por isso, a reconstituição desse período recente, mas ainda não explorado completamente, despertava o meu interesse. Decidi então, desde o começo, que utilizaria o Renato como personagem emblemático desse momento da história da cidade e do Brasil: por meio da juventude dele, seria possível tentar traçar um retrato do país. Ao tomar essa decisão, o recurso de entrelaçamento de fatos históricos com episódios da vida do personagem principal me pareceu a forma mais adequada de traçar esse retrato. Comecei, então, a tentar localizar e entrevistar pessoas anônimas que conviveram com o protagonista quando ele não era famoso - os amigos invisíveis: colegas de escola, antigos professores, ex-alunos, colegas de faculdade, etc. Deixei as pessoas mais conhecidas, os roqueiros de bandas como Capital Inicial, RPM, Plebe Rude e Titãs, por último, quando essa parte da pesquisa já estava traçada. Até porque sempre me interessou mostrar que o Renato se expressou de diversas formas - teatro, cinema, jornalismo, poesia - antes de se dedicar integralmente ao rock.

 

Houve alguma entrevista que tenha te emocionado de forma especial?

Carlos: Muitas entrevistas com pessoas anônimas foram catárticas - e levaram às lágrimas não apenas o entrevistado, mas o entrevistador. Alguns deles jamais tinham sido entrevistados, e guardavam com muita intensidade as lembranças do convívio com o Renato. Pareciam estar passando a limpo também a própria juventude. Outros depoimentos longos de pessoas conhecidas, como o de Dinho Ouro-Preto (Capital Inicial), também me surpreenderam: ele revelou, por exemplo, que ficou muito frustrado de não ter sido convidado pelo Renato para entrar na Legião Urbana.

 

Como foi a sensação de descobrir manuscritos inéditos e histórias de bastidores?

Carlos: A sensação de trabalho recompensado. Toda a documentação relativa à censura, por exemplo, teve que ser localizada manualmente em dezenas de caixas guardadas no Arquivo Nacional. Foram semanas inteiras de pesquisa. Cada novo processo localizado foi motivo de alegria: representava a certeza de trilhar um caminho ainda inexplorado, mas recheado de possibilidades de descoberta - como, de fato, aconteceu.

 

Carlos Marcelo

 

No final do livro você comenta que esteve com Renato. Como foi esse encontro pessoal?

Carlos: Nada especial. Ele estava nervoso por conta do primeiro show da turnê de O Descobrimento do Brasil, então foi um encontro breve. Ele só estranhou o fato de eu ter ido de Brasília para cobrir o show - mencionou isso na conversa. Mais marcantes foram as duas longas entrevista por telefone - uma delas demorou quase três horas de conversa e ele se mostrou muito acessível. Em ambas, se identificou apenas como Renato, não como Renato Russo.

 

Após conhecê-lo pessoalmente, seu trabalho e escrever o livro, qual sua real impressão de Renato como pessoa?

Carlos: Minha impressão é que o Renato foi, antes de tudo, um homem que viveu intensamente o seu tempo. Apesar de constantemente assombrado pelo fantasma da depressão, ele foi capaz de superá-la em diversos momentos e se integrar a diferentes turmas, especialmente no período retratado no livro, que é o de sua juventude. De perto, Renato podia ser afetuoso, irascível, terno, desagradável, amoroso... humano, enfim.

 

Escrever biografias pode ser um pouco arriscado... Você temeu uma reação negativa de fãs e da família quando decidiu publicar O Filho da Revolução?

 Carlos: Em nenhum momento. Por parte dos fãs, acredito que o livro poderia gerar interesse por revelar aspectos da vida do Renato não muito conhecidos pois não eram de domínio público. Da família, pela boa receptividade ao projeto inicial há quase dez anos, e à paciência com a qual fui recebido para diversas entrevistas ao longo de quase uma década, também nunca temi reação negativa. 

 

Renato Russo – O filho da revolução

 

Renato Russo – O filho da revolução (Editora Agir; 416 páginas, preço médio: R$ 50), escrito pelo jornalista paraibano Carlos Marcelo, já frequentou várias listas dos títulos mais vendidos do país.

 

 

E você, gosta do Renato Russo? Gostou dessa entrevista?

 

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