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Publicado em: 01/12/2009

Quando você é separado dos preconceitos da sociedade, o que sobra? O que separa você das outras pessoas?**

 

Quem disse a frase acima foi o ator Sharlto Copley, que interpreta o protagonista de Distrito 9: Wikus Van De Merwe. E basicamente esse é um dos questionamentos principais desta poderosa produção.

 

 

Pôster do filme

 

Há pouco tempo ninguém sabia muito sobre este longa-metragem, na verdade uma notícia ou outra saia, mas sem muito alarde. Logicamente, que os aficionados por ficção cientifica estavam de olho, afinal se prometia uma abordagem mais social, isso mesmo, seres de outros planetas com sérios problemas sociais. Quando foi então descoberto que o comando da produção era de ninguém menos que Peter Jackson, o interesse e curiosidade aumentaram. Porém, o filme já estava prestes a estrear, o que no final das contas foi bom, pois tornaram a surpresa e impacto ainda maiores.

 

E Distrito 9, do novato Neill Blomkamp (diretor e roteirista) cumpriu tudo aquilo que prometeu em seus vídeos e sinopse, trazendo uma história criativa, ousada, muito violenta e cheia de ação. Tudo isso, envolvido por uma humanização muito forte, um drama científico chocante, que provoca em você variados sentimentos, feito realmente para mexer com o expectador.

 

Assim, no ano de 1982 em Joanesburgo (África do Sul), uma nave gigantesca pára por sobre a cidade. Durante um bom período os humanos esperavam por um sinal deles, mas logo decidiram invadir e iniciar o contato. Ao chegar onde os alienígenas estavam, a descoberta foi assustadora. Eles se depararam com cerca de 1 milhão deles, vivendo numa situação precária e de carência total: doentes, desnutridos, sujos e mortos de fome. Logo que essas imagens foram parar na mídia, a polêmica envolvendo o que fazer com eles e que medidas de ajuda deveriam ser tomadas, começaram. Depois de muitas discussões e pressão internacional, os seres foram retirados da nave mãe, sendo tratados e acolhidos num tipo de campo para refugiados, que com o tempo acabou se transformando numa espécie de favelão, o nome deste local: Distrito 9.

Abaixo da nave mãe o favelão para alienígenas desabrigados.

 

Assim o filme transporta a todos para uma realidade fictícia, que utiliza uma linguagem estilo documentário, fazendo uso disso para compor suas transições de tempo, alternando a todo o instante entre o passado e o presente. Contudo, o fato do longa não utilizar em sua totalidade este estilo tem gerado polêmicas. Há momentos em que as cenas não são necessariamente com câmeras tremidas (como num filme normal) e outras sim.

 

O que se discute sobre isso é que outros filmes mostram que seguir um estilo determina uma lógica à história. Porém, misturar os estilos foi muito bem sacado neste filme e não interferiu na veracidade dos fatos. Afinal, essa forma satisfaz o expectador curioso em saber mais, especificamente em saber o que houve fora das câmeras. Além de que a ilustração dos acontecimentos, através do jornalismo, ajuda a criar uma credibilidade fictícia a história.

 

Os alienígenas

 

Depois de tantos anos em que os “Camarões” (apelido cruel aos ETs) convivem próximos à cidade, e em meio a tanta violência e medo devido a presença deles, o governo chegou a um ponto crucial. E a decisão foi transferir os alienígenas para um novo campo, bem longe da cidade.   È a partir daí que nasce o conflito principal da trama, pois ao fazer isso se desencadeia uma série de acontecimentos que vão do absurdo ao caótico, fora as muitas cenas violentas e nojentas. Outra questão é o visual e efeitos do filme, algo muito bem planejado, pois não foi escolhido nenhum ator conhecido, praticamente todas as locações do filme são reais, assim quase todo o dinheiro (30 milhões de dólares) pôde ser investido no que realmente precisava e o resultado foi excelente. Duvidam, então assistam ao trailer abaixo:

 

 

O legal de Distrito 9 é que ele não é nem um pouco sutil e não possui nenhum medo de escancarar sua metáfora. Utiliza algo extremo, para refletirmos sobre nossa maneira de julgar e tratar o próximo. Sabe aquela máxima que você já disse ou escutou em algum lugar “Me sinto um ET aqui” ? Expressão que geralmente é dita pra simbolizar a não aceitação. Então é por aí. Todos reparando em você e por algum motivo que desconhece o rejeitam, demonstrando: medo, agressividade, deboche ou simplesmente desprezo. É essa situação que esses seres estão expostos, situação que não é incomum, pois garanto que vocês já viram outras pessoas vivendo algo parecido, vamos citar alguns: Palestinos, Judeus, Homossexuais e muitas outras pessoas que optam pelo o que não é necessariamente “normal” diante das regras da sociedade.

 

E como nós nos tratamos mal! Historicamente os registros são absurdos, de tortura a humilhações de todos os tipos, condicionando quem é “diferente” as maiores privações, seja através da fome e da violência, que agride não só fisicamente como psicologicamente. Em Distrito 9, vemos tudo isso de forma literal, como uma ferida aberta, sendo cutucada constantemente..

 

Em seus 112 minutos, o filme mostra tanta coisa, que parece ser mais longo do que realmente é. E, definitivamente, o ponto mais forte da trama está na odisséia vivida pelo personagem de Wikus Van De Merwe. Ele que passa por todo um processo de descoberta, aprendendo a se colocar no lugar de seu próximo (de verdade), tudo após ser contaminado por um líquido alienígenas. O que acontece em seguida reflete uma série de revelações e situações bizarras, que levarão Wikus e um incomum parceiro a tomar decisões muito difíceis. A trilha é outro ponto forte do longa, colaborando para criar um clima tenso que se estende do início ao fim Não deixem de ver mais imagens do longa, no final da matéria.

 

Digo sem dúvidas, que Distrito 9 é um espécime raro da ficção científica, pois trabalha de forma diferente questões profundas, sendo criativo por não colocar mais uma vez extraterrestres nos EUA (Amém!). E por trazer uma abordagem de dentro pra fora, ou seja,  ao invés de olharmos para o espaço o filme nos convida a olharmos para nós mesmos. Mostrando que nem sempre a hostilidade está em que chega, mas sim em quem já mora por aqui.

 

**Trecho retirado de uma entrevista com o ator Sharlto Copley ao site do Omelete.

 

E você assistiu Distrito 9? O que achou? Concorda com nossa crítica?

Por Ingrid Heckler

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