Por Ingrid Heckler
Um ator de carne e osso exercita suas expressões a cada dia e é capaz de inovar e surpreender a audiência e a si mesmo com a experiência que vai somando com o tempo. Pode ser ousado dizer isso, mas animação estará sempre um passo a frente, mas isso quando quem a cria sabe exatamente o que está fazendo. Afinal, a partir dela pode se desenvolver qualquer história, dos mais variados gêneros, rasas ou profundas, silenciosas ou barulhentas, não importa, por meio dela é possível inovar e criar atmosferas e universos únicos, conferindo ao expectador algo revigorante e, realmente especial. E O Mágico é tudo isso e mais um pouco.

Contudo antes que você se empolgue e fique na expectativa por um longa que segue a cartilha Disney/Pixar/Dreamworks pode esquecer. O conceito aqui é poético e extremamente triste. Estamos diante de um drama apresentado de forma muito inteligente, sensível e tocante. Para começar, não existe nenhum personagem atípico humanizado, ou seja, animais não falam, objetos são apenas objetos, isto porque estamos diante de uma animação realista, que narra a vida que conhecemos com suas decepções e magia, mas a magia aqui não adentra ao fantástico, e sim ao lado lúdico, inocente, o bom que existe em nossa alma.

A película nos apresenta um artista, o mágico do título, e que não possui um nome explícito na trama. Este homem vive na maravilhosa Paris em plena virada dos anos 50 para os 60. Lá, contudo, ele experimenta a decadência de sua profissão a frente das novas sensações do entretenimento, como tendência do rock´n roll, que revolucionou gerações. Sem ter como competir com esta nova “onda” ele parte para outras alternativas, deixando de se apresentar em grandes teatros e, agora, em festas da casamento, assim como viajando para lugares mais distantes onde o rock ainda não havia chegado.
É numa dessas viagens, a Escócia, que ele conhece Alice - uma jovem faxineira de um pub que se encanta com sua “mágica” e resolve segui-lo logo que ele parte. Sem saber exatamente o que fazer e sensibilizado com a fragilidade e inocência da garota, o mágico resolve acolhê-la.

O relacionamento entre os dois não é definido claramente, ou seja, não sabemos as reais intenções do mágico, mas observamos suas atitudes, quase que paternais, com a jovem e entendemos que algum vínculo se estabeleceu ali. Sempre muito elegante e polido, este homem cuida desta moça e percebe seu fascínio pelas lojas e suas vitrines. Sempre que pode, lhe oferta um presente. E assim vai se construindo esta ligação regada a sonhos, desilusões e altruísmo.
A edição de som do filme é fantástica. Aliás, o longa mesmo sendo em francês dispensa legendas. Isto porque todas as poucas falas contidas possuem um áudio reprimido, como em um microfone de baixo volume, em contrapartida os sons da cidade e de tudo a volta é claro e muito mais perceptível. Esta composição sonora reflete claramente uma transição que se relaciona com a história, da decadência do cinema mudo, e ao mesmo tempo destaca muito mais as atitudes e expressões físicas dos personagens, ou seja, destina seu foco mais ao visual, que se desenrola de maneira melancólica e marcante.

O ritmo é lento, mas muito envolvente. Contudo, existe um algo a mais escondido por sobre a criação desta animação, algo que depois de descoberto nos ajuda a compreender o significado deste belo trabalho. O roteiro do longa é do francês Jacques Tati - responsável pela famosa produção As Férias de Mr. Hulot, indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1956. Aliás, O Mágico está indicado ao Oscar 2011 na categoria melhor animação.
Quem observa a carreira de Jacques, observa que seu último roteiro carrega uma impressão e expressão autobiográfica. Assim percebe-se que o mágico contém muito de seu autor, e que o relacionamento dele com a faxineira seria nada mais do que uma alusão a conturbada ligação que Jacques teria com sua filha. Lógico que nada disso é confirmado, mas o fato do autor ter enviado a cópia original do roteiro tempos antes de falecer a filha é mais do que uma dica. Vale uma ressalva: a direção é de Sylvian Chomet, mesmo que fez As Bicicletas de Belleville (2003), outro filmaço em animação. Portanto, está ai mais um motivo para compreender a força desta profunda e única obra do cinema animado.
E você: gosta de animações deste tipo? Ficou curioso?