Por Paulo Dantas
Jeison Reitman fala da incapacidade de aprofundar relações e questiona o propósito da vida
O filme ‘Amor Sem Escalas’ (Up In The Air, 2009) é uma paulada. Trata pouco do amor, do título em português, e muito sobre convivência e relações humanas. O longa dá aquela sensação de vazio na boca do estômago em boa parte de sua projeção. O diretor (Jeison Reitman, filho do apenas mediano Ivan Reitman, diretor de ‘Os Caça-Fantasmas’) imprime na história seu tom mordaz, já presente nos filmes ‘Juno’ e ‘Obrigado Por Fumar’.

Pôster do filme
George Clooney é Ryan Bingham, um homem solitário que trabalha numa empresa especializada em demitir funcionários. Ele é um Conselheiro de Transições de Carreira, teoricamente ajuda as pessoas que são demitidas a se re-alocarem no mercado de trabalho. Mas na prática a empresa é apenas uma forma indolor (para os donos de empresa) de demitir seus funcionários, já que eles não precisam lidar com a situação, chamam outros para dar a notícia. A opção em si já mostra um dos temas tratados na história: uma espécie de asséptica no trato entre as pessoas.
Assim, Ryan passa a maior parte do tempo viajando pelo país, demitindo homens e mulheres que já estão frágeis emocionalmente. As reações que observa vão desde a apatia, a raiva, até o desespero, passando por ameaças de suicídio. Digo observa, porque ele nunca interage emocionalmente. Ryan mantêm distância de contatos afetivos. A narração da cena inicial, quando vemos Clooney arrumando a mala e saindo de seu apartamento minúsculo e branco, mais uma vez a limpeza clean está presente, é esclarecedora: “Todas as coisas que você detesta em viagens: ar reciclado, luz artificial, suco de máquina e sushi mal feito, me lembram que estou em casa”.
Nesta descrição, e nas cenas milimetricamente perfeitas para descrever a rotina de Ryan, o personagem faz sua ode à impessoalidade. Aí Clooney lembra vagamente Tony Shalhoub, o ator de Monk, sem chegar às raias do autismo do personagem da série televisiva.
Assim vamos acompanhando a vida de Ryan, também conhecido como o ‘Homem Mochila’. O termo vem das palestras que ele dá, onde chega com uma mochila e pergunta: ‘Quanto sua vida pesa?’. O ‘Homem Mochila’ ensina que carregamos conosco muito mais do que apenas nós mesmos, também compromissos financeiros, status, bens materiais e emocionais, além de relações afetivas, sejam elas íntimas ou de trabalho e tudo isso pesa. ‘A vida é movimento’, diz. Garantindo que o melhor é queimar a mochila e tudo que está dentro dela, casa, carro, trabalho, fotos, sofá, televisão, tudo. ‘Imagine vendo tudo incendiar e acordando amanhã sem nada. É bem tentador, não é?’, pergunta, quase afirmando. O questionamento é pertinente, mas também uma armadilha que aponta para um permanente não envolvimento emocional.
Esses são os momentos iniciais. Todavia, a vida de Ryan está prestes a mudar com a introdução na narrativa de duas mulheres. Alex, Vera Farmiga, amante tão ‘descolada’ e sem interesses em manter nenhum compromisso mais profundo quanto Ryan. ‘Pense que eu sou você com uma vagina’, explica ela em dado momento. A outra mulher é Natalie, Anna Kendrick, contratada para introduzir na empresa onde Ryan trabalha a demissão via vídeo conferência. O intuito é baixar os custos com viagens e hospedagens. Mais uma vez o único dado em jogo é o financeiro e econômico.
Ryan será totalmente contra a novidade e por isso mesmo é convidado a ensinar à Natalie os meandros do ofício. Desta forma passamos a acompanhar as aulas que Ryan dá a Natalie sobre demissões, com direito até a exercícios práticos. Ao final das viagens, que incluem mais demissões e um retorno ao passado de Ryan e a sua vida de jovem normal numa cidade do interior, nenhum dos personagens será o mesmo.
Na história o diretor reforça um sentimento de alheamento e distanciamento ao introduzir cada cidade com imagens do alto, às vezes das nuvens, noutras quase como a visão do mapa da cidade vista do satélite. Lembrando uma visão do Google Earth,.
Vale ressaltar, que como disse Ryan, sua casa é um constante lugar de passagem, onde não há um destino final real. Ela está nas viagens, aeroporto, avião, nos hotéis e na sua obsessão por milhagens e cartões de crédito. Mas há algo nele que percebe que há algo imperfeito nesse mundo asséptico, apesar dessa percepção no princípio ser inconsciente. Num determinado momento uma aeromoça pergunta. ‘Do you want a can, Sr?’. Ela pergunta se ele quer uma certa bebida gaseificada, e ele entende: ‘Do you want a câncer?’ (Você quer um câncer?). Parece um ato falho inconsciente. Um alerta para seu estilo de vida que invariavelmente parece fadado a morte dolorosa e a solidão. É uma pergunta dele para ele mesmo.
Duas conversas são marcantes na história, uma entre Natalie, de 23 anos, e Alex, de 34, falando de suas perspectivas em relação aos homens. É interessante a crítica e a constatação, em muito real, das ansiedades femininas em relação aos homens. A outra é a conclusão de Ryan sobre casamento, expressa ao noivo da irmã.
Apesar do diretor redimir, de certa forma, o personagem principal do seu cinismo constante, presente no silêncio de Clooney que praticamente observa as cenas de demissões e nas conversas entre Alex e Natalie, não há como escapar: A sensação que percorre o filme é de um vazio aterrador.
Trailer de Amor Sem Escalas.
Um vazio que está expresso nas relações frias e esporádicas, nos laços familiares interrompidos, impossíveis ou mergulhados numa espécie de falta de intimidade. Há muito de moderno na temática do filme, a crise financeira, a solidão (de Ryan, sua irmã, de Natalie e de Alex). a quase impossibilidade de avançar e quebrar as barreiras da incomunicabilidade. Mas é através desse vazio, que Reitman acaba questionando o sentido da vida e dos encontros existentes nela. Com esse filme, e os anteriores, Reitman, mostra que é uma das grandes promessas cinematográficas da atualidade.