Por Ingrid Heckler
Diz a lenda que a mulher de Stan Lee* o ajudou em uma fase de sincera falta de criatividade. Ele estava tentando criar novos super-heróis para a editora Marvel, isto nos anos 60, e até o presente momento todos os personagens desta linha recebiam seus poderes mediante acidentes ou experiências diversas. Compadecida com o marido em sua busca por algo novo, a esposa de Lee teve uma senhora sacada e lhe disse algo mais ou menos assim: “e se ao invés de receberem seus poderes os personagens nascessem com eles?” Eureka! Tudo resolvido. Assim nascia os X-Men, dentro do argumento da mutação genética como explicação para os mais diversos, bizarros, fascinantes e divertidos poderes. Aliás começou aí uma fórmula praticamente infinita para se criar um universo literalmente recheado de personagens e tramas dos mais variados tipos.

Embora o sucesso da HQ não tenha sido de primeira, em seu lançamento em 1963, com a tempo, a ideia foi sendo mais bem trabalhada e apresentada a audiência que comprou e se apaixonou por estes novos e interessantes heróis.
Mas o que eles têm demais? Mesmo fazendo parte de uma nova espécie, uma nova escala da evolução humana, estes indivíduos são repletos de conflitos e defeitos como qualquer mortal, mas carregam habilidades praticamente divinas. Portanto, a índole de cada um define como esta pessoa usará seus dons para fins positivos ou negativos.
O mais interessante desta premissa é que em seu desenvolvimento ela vai se complicando e mostrando que não existe preto no branco, ou seja, bem e mal se misturam na complexidade da personalidade de cada um. Cria-se, a partir daí, uma grande metáfora da sociedade que oprime e segrega aqueles que são considerados minoria simplesmente por serem “diferentes” do que se define como “normal”. E quem, por favor, em sua vida, em algum momento, não se sentiu diferente ou desprezado? Está aí um dos motivos de maior identificação desta obra com relação ao seu público, principalmente o adolescente. Não é toa que X-Men é um dos quadrinhos mais vendidos da história.

Dos quadrinhos para as telas da televisão, com uma adaptação em desenho animado a trama se massificou. Não demorou tanto tempo assim, veio a primeira versão da HQ para os cinemas. Vale lembrar que foi a primeira decente, porque houve outras que nem vale a pena comentar. Bryan Singer é o nome do “cara”, o diretor que trouxe não só para a sétima arte algo que muitos fãs desejavam, mas foi o responsável por alavancar as adaptações das HQs para os cinemas de maneira definitiva. Afinal, depois de X-Men – O Filme (2000), vieram Homem-Aranha, Hulk, as continuações de X-Men e uma infinidade de produções inspiradas das páginas dos quadrinhos.
A grande sacada de Singer foi entender o material que tinha nas mãos e trabalhar seus dramas de maneira mais crível possível, claro dentro de um equilíbrio, até porque a história trazia seus alívios cômicos e ação. Mas o ponto alto para este diretor foi entender que era preciso tirar o ar caricato desenvolvido até então para adaptações do tipo e trabalhar bem alguns de seus personagens. E isto ele fez muito bem, não de forma perfeita, mas ele sabia o que queria e estava no caminho certo. Ele foi o responsável por trazer Hugh Jackman ao universo Hollywood como Wolverine, o personagem, sem sombra de dúvida, mais fascinante entre os mutantes. E alguém aí imaginou este personagem sendo interpretado por outro ator? Só por isto, ele já merece uma salva de palmas (risos).

O filme X-Men 2 (2003), novamente dirigido por Singer, foi superior ao primeiro e trouxe algumas das sequências mais bacanas para os cinemas, retratando muito bem a essência existente nos quadrinhos dos mutantes. Depois veio X-Men 3 – O Confronto final (2006), que teve duas premissas bem interessantes, mas não foi tão bom assim. Vale registrar que este último foi dirigido por Brett Ratner. O grande problema do terceiro filme - assim como também foi um erro recorrente dos outros filmes, embora não tão grave – foi o excesso de personagens. Abriu-se a porteira, e não houve limite nem roteiro o suficiente que desse conta de tornar possível assimilar tantas subtrama de maneira que elas não ficassem superficiais. E o que dizer do filme solo de Wolverine? Realmente desnecessário, algo que poderia ter sido fantástico e se tornou um material genérico, e por que não dizer uma bomba completa. Pois é, parecia o fim da trupe dos mutantes no cinema.
Porém, assim como um milagre da evolução genética, algo aconteceu. Singer voltou ao projeto, desta vez no roteiro (escrito a quatro mãos), e com Matthew Vaughn na direção – que dirigiu o fantástico Kick Ass (2010). Esta mistura trouxe as telonas X-Men: Primeira Classe (2011). Um longa-metragem que gerou muitas dúvidas de todos os lados, mas que sem sombra de dúvidas é a melhor adaptação da Marvel para os cinemas. Como bem disse minha colega “Ligada” Mônica Melo, nos outros filmes faltava alguma coisa e neste não falta nada, realmente não falta mesmo. O que se vê diante da telona é um completo amadurecimento em se adaptar uma HQ, tudo ali está na dose certa: o drama, humor, ação. E isto ocorre por um simples motivo, o filme se fixa nos três pilares em que todas as excelentes produções se firmam: um excelente roteiro, direção e personagens. Aliás, a escolha do elenco aí pesou também. Vai aqui o meu destaque total ao ator Michael Fassbender, que interpreta Magneto, ele está sensacional. Embora não seja o único protagonista do filme - pois o longa consegue distribuir bem seus espaços para os personagens -, este é sem dúvida o seu filme, ou ao menos aquele que vai alavancar seu sucesso de vez.

Ao que parece, nasce agora uma era mais evoluída destas adaptações para a sétima arte. Mais consciente de suas potencialidades, um material com um tom mais sério, sombrio e ao mesmo tempo muito divertido. Resta esperar que agora novos filmes venham no mesmo ritmo e que os erros já cometidos fiquem no passado. Afinal, parafraseado o Professor Xavier, depois de algumas “centenas de milênios” a evolução parece finalmente ter dado um salto.
(*) Um dos maiores roteiristas de quadrinhos e criador de personagens da editora Marvel.