Por Ingrid Heckler
Eles possuem uma vida simples, um jeito acanhado, tradições e conceitos fortes. Eles moram sempre em cidades pequenas, o chamado interior. Atendem por vários nomes: matuto, capiau, colono ou o mais óbvio, o caipira. O mais interessante desta figura é que ela existe em todas as sociedades, em todos os países, ou seja, existem várias formas de caipiras pelo mundo. Uma de suas marcas registradas é seu jeito de falar. Aqui no Brasil o dialeto caipira se apresenta como uma versão interessante da língua portuguesa, em que a pronúncia muda um “pouquinho”, além, claro, de expressões próprias, o que torna mais divertido e fascinante esta tribo, que aliás existe, nem que seja em uma pequena porcentagem, em cada um de nós.
E como é época de São João, nada melhor do que resgatar os costumes do bom e velho caipira. Portanto: “uncê se acumóde aí, pegue uns sargadinho, que nóis prepamo uma lista ispiciá, cheia de caipira da meió calidade, dirrretamenti das telona do cinema”.
Mazzarropi - O maior caipira nacional

Vamos começar por solo brasileiro. De primeira, Amácio Mazzaropi é nome de maior destaque e digo sem medo de errar que ele é a figura mais emblemática neste quesito. E, sinceramente, não poderia ser de outro jeito. Ator e cineasta estrelou mais de 30 filmes, a maioria deles dentro da temática caipira, entre os anos de 1951 e 1980. O que impressiona em sua performance é sua capacidade de compor nos mínimos detalhes os trejeitos de um matuto completo. Os seus filmes possuem uma inocência típica da época e do caipira em si e revelam boas comédias e algumas até com um teor crítico com relação a problemas e situações que preocupavam o país naqueles tempos.
Quinzinho – Tapete Vermelho
De tão marcante que foi a figura de Mazzaropi no cinema e no consciente coletivo nacional, não era de se estranhar que com o tempo boas homenagens surgissem no sentido de resgatar a criação deste grande artista. Matheus Nachtergaele estava realmente inspirado quando interpretou Quinzinho no filme Tapete Vermelho. Na trama ele é um pai de família, que deseja com todo fervor e amor que tem em seu coração, dar como presente de aniversário ao seu filho uma ida a cidade grande para que o pequeno veja um filme do Mazzaropi nos cinemas. Mas acontece que realizar este desejo não será fácil e a saga que este personagem irá viver será fantástica e repleta de drama e comédia da melhor qualidade. É impressionante a composição deste personagem, que é exatamente o que Amácio desenvolvia, o matuto do interior de São Paulo, mais especificamente do Vale do Paraíba.

João Grilo – Auto da Compadecida
Mas, Matheus Nachtergaele não fecha seu acervo por ai não, outro caipira faz parte de sua lista. E este veio direto de uma das obras mais lindas da literatura brasileira. Refiro-me ao Auto da Compadecida de Ariano Suassuna, em que Mateus dá vida a João Grilo, diretamente do sertão nordestino. Este personagem já não carrega nenhuma inocência, e sim toda malandragem, lábia e esperteza existente em uma pessoa que ultrapassa todos os limites da criatividade.
Chicó – Auto da Compadecida

Dentro da mesma obra cita acima, temos outra figura inesquecível. Chicó, interpretado por Selton Melo, é demais. Ele já não é tão esperto quanto João Grilo, mas é mentiroso como ele só e nunca perde uma oportunidade de contar uma de suas muitas aventuras mirabolantes. Quando questionado sobre a veracidade dos fatos sempre responde sem o menor pudor: “Não sei, só sei que foi assim”. Hilário!
Zacarias – O Casamento dos Trapalhões

Em 1988 os Trapalhões resolveram fazer uma versão peculiar do clássico musical de 1954, Sete Noivas para Sete Irmãos. Por aqui o filme se chamou O Casamento dos Trapalhões. Ao melhor estilo sessão da tarde temos uma história repleta de muita confusão. O filme na verdade se apresenta como uma divertida paródia do original e marcou a infância de muito marmanjo.
Os Clampetts - A Família Buscapé

Saindo do Brasil partimos direto para Beverly Hills. Mas a história aqui não começa na metrópole e sim em uma fazenda de um sujeito chamado Jed Clampett. Ele, um homem simples, sem querer descobre que suas terras possuem a maior concentração de petróleo do mundo. Ao ficar bilionário da noite para o dia ele resolve se mudar para a badalada Beverly Hills. O filme é mais um espécime da sessão da tarde, contudo um clássico quando o assunto é choque cultural dos caipiras com a cidade grande. É realmente muito bom! Vale aqui o registro de que o filme é baseado em uma série de TV que possui o mesmo argumento. A série foi exibida pelo canal CBS de 1962 a 1971. O filme é de 1993 e aqui todos os personagens da família Clampett se destacam: o já citado Jed (o pai), Daisy "Granny" Moses (vovó), Elly May (filha) e Jethro Bodine (primo distante e “esperto”).
Brad Pitt – E seus múltiplos Caipiras
Mas nem todos os caipiras seguem a linha do humor. Brad Pitt, aliás é especialista em alguns desses tipos bem únicos e encantadores, alguns, porém, podem ser bem sinistros também. Um de seus primeiros personagens, e que teve certa evidencia, foi o J.D. que seduziu e deixou a personagem de Geena Davis bem maluca, no filme Thelma e Louise (1991). No filme Kalifornia (1993) ele viveu Early Grayce um psicopata ignorante e que tocou o terror com o David Duchovny, o eterno agente Mulder.

Um ano depois em Lendas da Paixão (1994), era a vez do personagem Tristan conquistar os corações de milhares de mulheres mundo afora. Mais tarde em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (2007), Brad vive Jesse James, o famoso fora-da-lei caipirão e bem sinistro. E não para por ai, no filme O Curioso Caso de Benjamin Button (2008), o ator interpreta o personagem título que também vive no interior. E para fechar com chave de ouro temos primeiro-tenente Aldo Raine, o típico caipira bruto norte-americano vindo da mente singular de Quentin Tarantino, no filme Bastardos Inglórios (2009). Ou seja, Brad nos presenteou em sua carreira com diferentes caipiras, mas o sotaque continua o mesmo.
O cinema adora caipiras e muitos ficaram de fora. Mas e para você: qual o caipira mais marcante das telonas?