Por Sandrine Braz
Pense rápido e responda mais rápido ainda: qual o personagem cinematográfico que mais te lembra a cultura nordestina?
Se você respondeu João Grilo, tenha certeza de que você está certo.
Mais uma perguntinha do nosso quiz show: qual a literatura tipicamente nordestina? Se a resposta foi cordel, parabéns, você é um típico conhecedor da cultura popular nordestina. Caso contrário, você terá a possiblidade de saber um pouco mais agora.

Talvez você não tenha conhecimento, mas existe um cordel protagonizado por um certo João Grilo. É óbvio que não se trata de uma releitura da obra de Ariano Suassuna que foi adaptada para as telonas, até mesmo porque se tratam de gêneros completamente diferentes: o cinema e a literatura de cordel. De um lado, a sétima arte que tanto encanta e fascina com suas produções e custos exorbitantes, que reúne em um só lugar sons e imagens, nos transportando para realidades tão diferentes.
De outro, o cordel. Um folheto simples, pequeno, com páginas coloridas e com gastos ínfimos. No cordel as imagens são xilogravuras, uma espécie de “carimbo artesanal”, que serve para ilustrar capa e contracapa. Os cordéis contam ainda com seus versos rimados, que dá mais ‘gingado’ ao texto.

E o que mais encanta na literatura de cordel é a possibilidade de criar e sentir imagens e sons, podendo adentrar em cenários diferentes com sonoplastias diferentes a cada leitura, a cada estrofe e a cada verso lido.
As festividades juninas já estão chegando, e quem ainda não teve a oportunidade de ler um folheto de cordel não sabe o que está perdendo. E nada melhor do que começar com uma obra de linguagem simples e que te faz sentir coadjuvante do que se está sendo narrado. O cordel de João Ferreira de Lima, intitulado “Proezas de João Grilo” é um bom exemplo disso e que merece ser apreciado por qualquer tipo de leitor, que esteja apto a ser puxado para dentro da forma mais legítima e peculiar expressão da cultura nordestina.
As comparações com os personagens da obra de João Ferreira de Lima com a obra do paraibano Ariano Suassuna são inevitáveis não só por serem homônimos, mas por ambos terem senso de humor marcante, traços físicos muito peculiares e acima de tudo, uma boa lábia.

João Grilo, de João Ferreira de Lima, é um brasileiro nato e que por isso sempre dá um jeitinho de uma situação embaraçosa. Grilo não é uma criação de um personagem excepcionalmente nordestino, é o reflexo de como se enxerga a maioria do povo brasileiro. As caraterísticas regionais ficam por conta dos versos rimados, dos cenários descritos e das ‘nordestinidades’ presentes no vocabulário de cada personagem, inclusive no do protagonista.
No folheto “Proezas de João Grilo”, o sarcasmo é marcante sim, principalmente por se tratar de um personagem caricato, engraçado e que dribla toda e qualquer situação desconcertante. João Grilo é retratado como uma pessoa de pouca sorte que até nasceu antes do dia, feio e com as pernas tortas.
Claro, o conteúdo do cordel é ótimo. Muitas das narrativas (sim, esse cordel tem um mix das maiores proezas do João Grilo narradas em um único lugar) sequer têm a possibilidade de acontecer fora desse livreto. É exatamente isso que dá um ‘Q’ a mais na história de João Grilo do cordel.
Essas proezas de João Grilo acontecem em todas as esferas da sociedade, desde sua ‘passada de perna’ no padre até seu encontro com reis e rainhas. Aqueles que querem uma narrativa fidedigna da cultura e dos fatos reais não deve esperar isso do cordel de João Ferreira. É claro que isso não é uma exclusividade do exemplar de Proezas de João Grilo, mas uma característica inerente aos próprios folhetos de cordel encontrados nas feiras livres do nordeste brasileiro. Contudo, há exceções à regra.
Nome: iara
Comentário: eu achei muito criativo e interessante