Por João Thiago da Cunha Netto
Guy Montag é um homem com uma pergunta na cabeça: Você é feliz? Quem lhe faz esta pergunta é alguém que, diferente de todo o mundo, não está mergulhado em um mundo de anestesias morais como as pessoas que cercam o bombeiro. Seu trabalho, aliás, é simplesmente colocar fogo em livros, obras consideradas subversivas no mundo de Fahrenheit 451.
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Aos que leram o livro ou viram o filme, ambos excelentes, os quadrinhos não trazem novidade. Aos que desconhecem a obra original, trazem - mas não tanto quanto poderia. E isto é um problema de Tim Hamilton. A história acompanha a crise existencial de Guy Montag, um dos bombeiros responsáveis por atear fogo a qualquer livro. Um belo dia, Guy é confrontado pela filha de seus vizinhos que lhe lança esta pergunta. “Você é feliz?”
Ray Bradbury trabalha a questão da felicidade em uma sociedade anestesiada pelo consumismo e pela falta de consciência do mundo causada pela falta de livros, proibidos anos antes. Bradbury discute a literatura? Não. Ele discute os caminhos que os detentores do poder escolhem para nos ocultar o que pode nos abrir os olhos. Com uma metáfora direta, o incêndio, mostra o risco que os livros oferecem para o status quo, criando questionamentos indevidos, como quando vemos Montag começar a fazer quando lê os primeiros trechos de As Viagens de Gulliver, um dos diversos livros que vinha roubando dos incêndios. A mente de Guy vai se abrindo para o mundo que não está à sua volta. Não a letargia dos programas de TV que sua mulher vê, ou o pragmatismo de seu chefe. Não. Montag vai sendo consumido pela evidência de que existe um mundo maior à sua volta.
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Tim Hamilton, autor da graphic novel autorizada por Ray Bradbury sobre Fahrenheit 451 não consegue captar este clima de tensão plena que a obra original tem. Em alguns momentos, peca pelo mal reproduzir das imagens. Hamilton é um bom fisionomista, com traço interessante, mas não sabe dar a expressividade correta para as figuras que desenha. Em momentos que o rosto deve estar tenso o faz leve, ou o contrário.
Outro erro em que incorre é a má escolha do que representar nos desenhos. Quadrinhos são histórias que não se conta apenas com o que a gente vê, mas com o espaço entre os quadros, e é na falta de bom gerenciamento destes espaços que está o maior pecado de Tim Hamilton. Em alguns momentos, aquilo que mostra em imagens se repete em textos desnecessários. A linguagem não é dinâmica, e a obra se arrasta em alguns trechos, repetitiva.
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Isso, no entanto, não tira o brilho do desenho e das cores que Hamilton imprime à obra. Suas cores falam sobre o que está acontecendo, o que é bastante interessante. A graça dos traços está nos detalhes, milimetricamente escolhidos pelo autor. Traços deixam de ser usados e outros são supervalorizados para concentrar a atenção do leitor em algum ponto. Isso enriquece a obra e compensa a leitura deveras.
No mais, um clássico adaptado. Com a autorização e a introdução do autor da obra original, não surpreende que o resultado é positivo. No entanto, apesar de boa, a graphic novel não chega aos pés do denso, profundo e intenso livro de Ray Bradbury.