Por João Thiago da Cunha Netto
Não é difícil se apaixonar por Paris. Qualquer um consegue achar lindos os jardins ao largo do Sena, o Champs Eliseé, a Torre Eiffel. Qualquer um encontra graça e romance nos pequenos bistrôs, nas ruelas que remontam a tempos imemoriais, passados de glória da, hoje, capital da moda.

A Cidade Luz já foi a capital de outras coisas também. Nos anos 20, a capital da literatura, na década de 1890, a reunião dos maiores artistas plásticos do mundo. Paris vive do seu passado e da sua história, não sem certo pedantismo de quem acha que sua história é mais importante que a de outros. Paris sabe-se melhor. Aliás, sabe-se a melhor.
E Paris deixou apaixonado um nova-iorquino declarado: Woody Allen filmou a cidade em seu Meia Noite em Paris. Mas não a filmou como a capital moderna da moda e da gastronomia. Não a cidade pedante que recebe turistas que se acham cultos e inteligentes. Não. A Paris de Woody é outra, a Cidade Luz em seu auge, seu ponto máximo de fulgor e luminescência: a Paris dos escritores. De F. Scott Fitzgerald, T.S. Elliot, Gertrude Stein e, principalmente, a Paris que era uma festa para Hemingway.

Não é à toa que Woody os convida a todos para dançar sua música, desfilando em seu filme. Grandes escritores cruzam o caminho de Gil Pender, interpretado por Owen Wilson, roteirista hollywoodiano em crise, querendo ser mais do que é. Gil, como a personificação dos personagens de Allen é hipocondríaco, inseguro, está em um ponto de ruptura, buscando saber quem é de uma forma demasiada impaciente. Gil é apaixonado por Paris, diferente de sua rica noiva Inez, vivida por Rachel McAdams, que não quer ficar na cidade a não ser como turista. Gil quer viver Paris. Ele acha a cidade linda sob a chuva, à noite, respira a vida da capital francesa, destaca que seus grandes ídolos viveram todos ali, nos anos 20, o ponto máximo da existência da cidade.
Então, um dia, Gil é, simplesmente, catapultado para a época em que sempre quis viver. Lançado para conviver ao lado dos grandes artistas que se reuniam ali para viver a poesia que emanava da cidade que cerca o Sena. A Paris dos sonhos de Gil se torna realidade e ele passa a dividir espaço com Scott Fitzgerald (Tom Hidleston), Gertrude Stein (Kathy Bates) e Ernest Hemingway, interpretado de forma intensa e divertida por Corey Stoll. É nesta Paris que Gil conhece Adriana, personagem de Marion Cotillard, por quem se apaixona.

“Você já esteve com uma grande mulher? Daquelas que, ao menos por um segundo, fazem você perder o medo da morte?”, pergunta Hemingway a um inseguro Gil Pender, medroso e afetado por tudo o que o cerca. Em todo o tempo Owen Wilson consegue emprestar ao personagem o rosto patético de quem está vivendo ao lado de seus grandes ídolos. E não apenas tendo a oportunidade de dizer “sou seu fã”, mas bebendo com eles, sendo lido e criticado com eles, dividindo as pequenas verdades do amor e da vida com eles. Gil vive durante o filme, aquela vida que todos queremos viver ao lado de nossos grandes ídolos, e não é aí que Allen para. A questão que ele quer levantar vai ainda mais a fundo, é mais interessante e mais verdadeira que a simples admiração que nutrimos por pessoas que não são, nada mais, nada menos, que normais como nós.
Allen quer falar sobre o fato de que muitos de nós no sentimos deslocados no tempo, não pertencentes ao nosso presente. Quantas vezes já não ouvimos ou mesmo falamos que “eu deveria ter nascido mais cedo” ou “vivo na época errada”? Temos a mania de achar que o passado é mais interessante que nossos dias e nos prendemos a ele. Adriana mostra isso quase no fim do filme para Gil.

Esta nostalgia, que marca toda a película e é seu grande e verdadeiro tema. É uma assinatura do próprio Allen, homem ligado ao passado. Ele expressa o mesmo sentimento em A Era do Rádio e A Rosa Púrpura do Cairo. Allen sabe que os tempos passados não são melhores que os atuais e diz isso em dado momento do filme, mas não cansa de dizer como gostaria que fosse. As batidas do relógio que marcam meia-noite são a demonstração, para Gil e para nós, que aquele passado fantasioso está começando a despontar diante de nós.
Além do mais, Allen está apaixonado por Paris e a cidade se derrama, como amante romântica diante dele. Gil, alter ego do diretor, fala sobre a beleza das cidades durante o filme. Não que Woody precisasse dar uma explicação sobre seu amor por grandes cidades, amor que ele já demonstrou por Nova York tantas vezes, por exemplo. Woody é um desenhista de cidades, e Paris, diante de seus olhos, se torna um desenho de Tolouse-Lautrec, cuja arte, aliás, nos anos 20, já era nostálgica o bastante.