Por Mônica Melo
Antes de qualquer outra coisa que eu possa escrever, devo frisar que o novo filme de J. J. Abrams produzido por Steven Spielberg é um doce mergulho na infância, numa época em que ela ainda existia. Quem quiser pode pensar o contrário, claro, mas para mim não é um filme sobre invasão alienígena ou coisa similar, é sim um filme sobre os medos e delícias da infância e qual fortes são os laços que nos unem aos nossos amigos nessa fase da nossa vida. O filme se passa no ano em que eu nasci, então de certa forma ainda tive contato com aquela atmosfera típica, o que me deixou muito a vontade.

Envolto neste clima, o filme é uma espécie de reciclagem dos filmes que encantaram nossa infância. Mais do que qualquer monstro do espaço, a maior delícia desta película, cujos personagens centrais não ultrapassam os quinze anos, é mesmo a nostalgia. Até porque não precisa ser gênio ou cinéfilo (admito não ser nenhum dos dois) para reconhecer traços das tramas e do estilo que marcou época de quem a viveu na era Spielberg vendo ET, O Extraterrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, até mesmo Tubarão, Parque dos Dinossauros e principalmente Os Goonies (que Spielberg não dirigiu, mas produziu). Você vai encontrar um pouco de cada um deles lá.
Se você não soubesse quem é o diretor apostaria todas as suas fichas no Spielberg e fica evidente que Abrams bebeu bastante desta fonte, seja pelo ar setentista, seja pelo foco nas crianças ou ainda por pregar que o ser humano seria incapaz de tratar amigavelmente qualquer criatura diferente dele, vindo do espaço ou não. As influências são tão descaradas que acredito que o diretor fez de propósito, como uma espécie de homenagem. O filme tem aquela tradicional mistura do humor com o drama infantil e muita, muita ação com momentos de tensão e perigos quase inescapáveis. A produção do filme dentro do filme, realizado pelas crianças, rende muitas e gostosas risadas. Ah! Não saia antes dos créditos, pois você ainda vai rir um bocado vendo o resultado final do filminho que os garotos faziam quando foram interrompidos pelo horrível acidente de trem (não, eles não morrem, e sim, eles conseguem fazer o filme).

Este fato é relevante já que a narrativa, a forma da construção dos personagens a moda Spielberg, faz com que nos apaixonemos por cada um deles, principalmente os da ala jovem. Todo mundo que foi feliz na infância teve um amigo ou já foi como algum daqueles garotos. Está tudo lá: a inocência que já perdemos, o desprendimento e a coragem que com o tempo se vão, a força da amizade e das promessas, a fé.
Todos os elementos aparecem na medida certa: o romantismo, a nostalgia, a ação, o drama. Nada em grandes doses. Todos os ingredientes combinados resultando em uma receita sutil e deliciosa. A fotografia é um dos ingredientes mais especiais. Em tempos de alta definição e 3D, parece que o filme foi rodado com uma câmera antiga o que valoriza mais a história. O contraste da grandiosidade do evento com a atmosfera tranquila de uma típica cidade do interior foi a forma acertada para acolher todos esses ingredientes que fizeram o bolo crescer e se tornar apetitoso.
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A parte triste do filme é bem típica do Spielberg: coitado de qualquer extraterrestre que ouse pousar aqui. A gente já se maltrata uns aos outros, imagina quem vem de fora e tem cara feia? O vilão não é o monstro, o vilão somos nós que tornamos o monstro em algo que quer nos destruir, lembra do Magneto no X-Men? O cara só queria ir para casa e depois que você percebe isso, passa até a torcer por ele.
Enfim, é possível falar horas sobre o filme, mas recomendo que você assista. Tive que assistir a versão dublada, eu odeio filmes dublados, mas aconselho a ver essa versão também, sabe por quê? Além da dublagem estar boa, ficou com cara de Sessão da Tarde, o que só fomentou o clima de nostalgia. Ótimo para quem passou dos 30.