Por João Thiago da Cunha Netto
“Será o vampiro pior que o pai que dá à sociedade o filho neurótico que se torna um político?”, questiona Robert Neville, o último homem vivo sobre a terra em um ponto de Eu sou a Lenda, livro legendário de Richard Matheson. Esta é apenas uma questão política abordada pelo autor ao longo da obra. A sociedade como um todo é posta em xeque neste thriller de sobrevivência, em que um homem sozinho precisa lutar contra os vampiros que batem à sua porta todos as noites querendo seu sangue.

Tudo começa com uma praga que mata milhões de pessoas. O único imune, e nós vamos descobrir depois o porquê, é Robert Neville, um pacato trabalhador de uma fábrica, um homem indômito, de bravura e coragem idem, mas de coração dilacerado pela falta de propósito e pelas perdas que marcam quem ele é dentro da obra. Trata-se de um homem construído pela dor destas perdas. Estamos nos meses subsequentes ao início da praga e Neville precisa encontrar ocupação. Mas, mais do que isso, precisa saber qual o propósito de sua existência na nova organização de mundo diante dele.
Este é o grande questionamento de Neville ao longo da obra. Matheson joga seu protagonista contra a parede fazendo-o questionar, diversas vezes, o porquê de ter sobrevivido e qual era o propósito que o fazia continuar. Neville prossegue em sua vida, mesmo sem saber o porquê, para que seguir. Ele simplesmente o faz, pois não tem outro caminho que conheça que não seja viver, lutar, continuar.
Há um momento em que Neville nota que ele não é mais parte da sociedade. Ele não é mais o normal, já que o conceito de normalidade envolve maioria, e ele é único. O normal é ser vampiro. Com isso Matheson está colocando a própria sociedade em xeque, expondo que o conceito de normalidade é a insanidade dos chupadores de sangue. Ele entendia que o mundo estava se transformando em um lugar de pessoas egoístas, como seus vampiros, meros animais insaciáveis. Questão profunda e interessante, muito explorada em histórias de zumbis, mas pouco conhecida quando se fala sobre vampiros.

Nos poucos momentos em que encontra alegria, Neville a vê escorrendo por entre seus dedos. Quando pensa que o conhecimento o libertaria, este não o faz. Quando acha que um cachorro pode fazer-lhe companhia, este morre, quando surge Ruth... a alegria não faz parte do mundo em que Neville está vivendo. Suas duas alegrias se foram antes do livro começar e já o conhecemos entretido com a segurança de sua casa e questões triviais ligadas à sobrevivência.
O livro ganhou duas adaptações cinematográficas. A primeira, A Última Esperança da Terra, contava com Charlton Heston e apresentava alguma fidelidade à obra original, ainda que pouca. A segunda, mais atual e extremamente aclamada, conta com Will Smith no papel principal e quase nada tem a ver com a história contada por Matheson. Apesar de dois bons filmes, que tratam de questões interessantes, não chegam aos pés da obra original e sua visão apocalíptica e pessimista de mundo.

A importância do livro escapa de tão grande. Matheson inspirou escritores como Stephen King, que declarou certa vez que o autor de Eu sou a Lenda era sua maior inspiração. Ganhou prêmios, como Bram Stoker Award for Life Achievement e Writers Guild Award. Eu sou a Lenda é lido e relido por todos os autores de terror e ficção científica como sendo um dos pilares da moderna escrita. Escritores como Dean Koontz, Ray Bradbury e outros. No Brasil, André Vianco, um dos maiores escritores de terror do país, declara que é um dos melhores livros que já leu. Sua influência se sente em obras como Blade, da Marvel, e no cinema, em diversos filmes de vampiros e zumbis. Matheson atravessa o tempo como um dos escritores mais influentes de sua geração, que acabou formando gerações subsequentes, criando grandes autores que se debruçaram com curiosidade e assombro sobre sua obra.
O ato final é marcante e seco, uma demonstração de orgulho e arrogância naturais ao personagem. Neville não se entrega. Indômito, desde o princípio, como cavalo chucro, não aceita o destino escrito para si por seus algozes. Conta, para isso, com a ajuda de Ruth. Mas Neville escolhe seu caminho. Decide como começa e como termina sua vida. Neville é o homem que precisa ser, e se torna aquilo que faz dele alguém tão inesquecível e marcante por toda a sua perdida humanidade no meio de tanta morte e tristeza: Neville é a lenda. E Matheson também.
Nome: P.H.
Comentário: Faltou citar Um outro filme, "The Last Man on Earth" de 1964. Entre todos, é o mais fiel ao livro.
Nome: João Thiago
Comentário: Verdade, com Vincent Price no papel de Robert Neville. De todos o mais fiel à obra original, e com uma ambientação trash aterrorizante e perfeita. Obrigado pela lembrança, P.H.