Publicado em: 14/02/2010
Em 1987, no bairro do Harlem, a jovem Claireece ‘Precious” Jones (a novata Gabourey Sidibe) é uma adolescente de 16 anos que sofre uma série de privações. Violentada pelo pai, Carl (Rodney Jackson), e abusada pela mãe, Mary (a comediante Mo'Nique). Precious é gorda, negra e pobre. Além disto, está na segunda gravidez do pai – já tem uma filha, que está sob os cuidados da avó, a qual apelidou de "Mongo", por ser portadora de síndrome de Down.

Pôster do Filme
A garota se refugia em sua imaginação, sonhando que é magra, branca, loira ou que é uma grande estrela do show business. Com a segunda gravidez, Precious é suspensa da escola pública, onde estuda. Mas graças a diretora, Sra. Lichtenstein (Nealla Gordon), consegue uma escola alternativa. É lá que ela encontrará um meio de fugir de sua existência traumática.

Cena com Gabourey Sidibe, que vive a personagem Preciosa
O filme ‘Preciosa’ é baseado em um livro da escritora e ativista negra Sapphire, a história poderia ser um melodrama repleto de clichês, mas consegue escapar dessa abordagem fácil com a direção segura de Lee Daniels (primeiro diretor negro a concorrer o Oscar) – que suaviza as cenas mais chocantes, buscando uma visão naturalista.
As atuações marcantes de Gabourey Sidibe e Mo’Nique também são um trunfo, que dão verossimilhança à narrativa. Mo’Nique (Mary) cria uma mãe extremamente plausível, preguiçosa, lasciva e mergulhada na própria auto-indulgência. Uma mulher que vive as custas do dinheiro que a assistência social paga a filha e a neta, mas que não perde a oportunidade de violentar psicologicamente Precious, dizendo que não adianta estudar ou querer outro destino, ela é burra e não pode ser melhor do que a própria mãe.

Cena com Mo’Nique, que vive Mary, uma das mãe mais odiosas que o cinema já aprensentou
Mary poderia ser um personagem unidimensional, mas ao invés disso, Mo’Nique consegue expressar uma mulher recalcada e com forte sentimento de inferioridade. Incoerente nos seus próprios sentimentos e ações, que tem um senso de julgamento perverso. È especialmente interessante quando ela reclama: ‘minha filha de escorpião...’. A frase diz muito sobre o sentimento que envolve mãe e filha.
Mo’Nique mostra que Mary, apesar da arrogância e violência, e até por conta disso, está sufocada por um caráter inseguro e amedrontado na crença de não ser digna de provocar amor em alguém.
Já Gabourey Sibide constrói uma interpretação sem excessos, mas mostra as nuances de uma garota adolescente perdida em seu mundo real. Uma refugiada dentro de sua própria casa e que, apesar de nunca ter encontrado motivo para viver, não sabe como morrer e permanece dia após dia.
São interessantes as saídas dramáticas construídas por Lee Daniels. Na cena em que Precious está sendo estuprada e olha além do pai – que nunca aparece de forma clara – para uma rachadura no teto, por onde escapa para sua vida de sonho. Através do tempo, Gabourey mostra o processo de amadurecimento e renascimento de Precious. O nome será explicado, em parte, pela mãe no final do filme.
Toda vez que as duas atrizes (Mo’Nique e Gabourey) estão contracenando podemos ver um show de interpretação. Apesar do filme ser um drama há também cenas engraçadas, principalmente a dos sonhos. As cenas acabam sendo mais uma tirada acertada do diretor, que nos mostra o universo estranho de ‘Precious’ sem pudor em tentar defender a personagem.
O filme ainda conta com interpretações inusitadamente sóbrias e equilibradas de Mariah Carey (Sra. Weiss) e Lenny Kravitz (Enfermeiro John), que dão suporte ao elenco.
Trailer Preciosa
‘Preciosa’ lança luz sobre uma realidade que existe. E além de um drama seco, consegue também ser um libélulo contra o preconceito, seja ele racial, sexual ou físico. Uma lição de superação e vida. Vale a pena assistir.
Por Paulo Dantas