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Publicado em: 15/02/2010

 

A emoção da batalha costuma ser um vício forte e letal, pois a guerra é uma droga” (Por Chris Hedges)

 

Vale lembra que a expressão Guerra ao Terror simboliza uma iniciativa militar desencadeada pelos Estados Unidos a partir dos atentados de 11 de setembro. O então presidente George W. Bush dos EUA, a declarou como parte de uma estratégia global de combate ao terrorismo

 

Pôster do filme

 

No entanto, ‘Guerra ao Terror’ (The Hurt Locker), e aí falando especificamente do filme (o título em inglês seria algo como trancafiar o que machuca), toca em vários aspectos de uma guerra, lembrando que a vida dentro do campo de batalha, pode ser repleta de desespero ou vício, literalmente. Assim é para o personagem central, o sargento William James (Jeremy Renner).

 

 

Sargento William James (Jeremy Renner).

 

O longa-metragem começa mostrando a Companhia Bravo nos seus últimos 39 dias no Iraque. O líder da Companhia é Thompson (Guy Pearce), o especialista em desarmar bombas, que conta também com Sanborn (Anthony Mackie), o imediato responsável pela estratégia de segurança da equipe, e Owen Eldridge (Brian Geraghty), o soldado que auxilia os outros dois. Na cena inicial, os três foram chamados para desarmar uma bomba deixada numa das ruas da cidade. Ao invés de desarmar, eles resolvem explodí-la. Contudo, um problema com o robô faz com que Thompson tenha que levar os explosivos pessoalmente até a bomba.

 

É uma operação arriscada. Sanborn e Owen devem ficar de olho em todas as pessoas suspeitas, já que o artefato pode ser detonado de forma remota. É o que acontece. Owen vê um homem segurando um celular. Corre para impedir que ele detone a bomba, mas tudo vai pelos ares e Thompson é abatido.

 

Guy Pearce faz Thompson, o líder da Companhia Bravo.

 

A morte de Thompson mudará o equilíbrio da equipe, até então harmônica e, de certa forma, infantil com seu espírito de camaradagem. Entra em cena James, e seu estilo voluntarioso que prefere não obedecer às normas e cumprir as missões seguindo seus próprios instintos, o que leva cada missão a ser literalmente uma roleta russa. Assim, James (o novo líder) e Sanborn (o imediato encarregado da segurança da equipe) baterão de frente – um querendo fazer prevalecer sua liberdade de ação e o outro querendo estabelecer uma forma metódica nas abordagens. Enquanto isso, Owen vive a deterioração psicológica por não ter conseguido salvar o antigo líder. 

 

Os três atores estão bem, com destaque para Brian Geraghty, que consegue imprimir a dose exata de angústia numa personagem que deve aprender a tomar suas próprias decisões.  Anthony Mackie também constrói Sanborn com mestria, colocando-o dentro de uma carapaça de frieza. Mas é Jeremy Renner quem dá maior carga dramática e complexa ao sargento James. Um rebelde moderno, que prefere estar no exército, não por algum senso de dever, mas por uma espécie de prazer sádico.

 


Cena do filme.

 

James é uma bomba de adrenalina. Suas ações beiram a loucura, mas também o fazem encarnar o herói inconsequente e, de certa forma mitificado (como James Dean).  Daqueles heróis que são capazes de deixar que a adrenalina anestesie o medo iminente da morte, fazendo do estresse profundo uma mola propulsora. James quer a dor e o perigo. Busca isso, como se procurasse o prazer de viver. Ele é a personagem que dá a dinâmica do filme.

 

Ao término de ‘Guerra ao Terror’, James continua ainda por algum tempo na sua cabeça. Como se nos perguntássemos por que ele não consegue viver em paz. Talvez uma das respostas seja porque na guerra ele se torna especial. 

 

Em paralelo a isto, vemos um país destroçado, onde crianças jogam pedras nos carros blindados dos soldados e os mesmos olham para os iraquianos com desconfiança. É a miséria da guerra, com sua aura de ameaça permanente, seus homens e crianças bombas e o caos provocado tanto pela invasão quanto pelos insurgentes.

 

A montagem é um ponto forte do longa, com vários cortes secos, mostrando a tensão do momento, sem ser frenética, deixando que a própria ação fale por si. Uma ação que normalmente é lenta e cuidadosa. A música apenas pontua e antecipa o suspense.

 

Também é possível ter uma outra leitura do filme. Uma metáfora da própria condição estadunidense, que constrói guerras num processo que se auto-alimenta, assim como o vício da citação inicial. Os motivos, desse vício, seriam vários: para mostrar seu poderio bélico, para fazer avançar sua tecnologia e para dominar, dentro de uma política estratégica, onde partes do mundo consideradas vulneráveis politicamente e importantes economicamente devem se manter sobre as ‘asas da grande águia’.

 

 

Owen (Brian Geraghty), Sanborn (Anthony Mackie) e James (Jeremy Renner).

 

Assim, James, Sanborn e Owen seriam uma espécie de amálgama da ação do próprio EUA. O país é um herói, como James, meio louco é verdade, e destruído interiormente, mas destemido e ainda capaz de um gesto em relação ao invadido, ainda que esse gesto seja atrapalhado e acabe destruindo, muito mais que construindo algo.

 

Sanborn talvez se encaixe no usurpador patriota, metódico, com um outro tipo de sangue frio, que vê apenas o inimigo, não há nada mais do que isso. Sanborn seria do tipo capaz de apertar um botão e retirar o obstáculo do caminho, é a parte que prefere estar cega para uma realidade maior em jogo. E Owen, aquele que está paralisado de medo e que preferia permanecer distante de tudo. Não por respeito, mas por pavor.

Trailer de Guerra ao Terror

 

Assim, o filme da diretora Kathryn Bigelow acaba lançando mão de uma análise anti-belicista para além de uma história de guerra – ou uma espécie de faroeste com bandidos e mocinhos.

 

Já assistiu Guerra ao Terror? Acha que ele vai faturar mais Oscars que Avatar?

 

Por Paulo Dantas

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