Por João Thiago da Cunha Netto
Antes de qualquer coisa, esta não é uma crítica técnica.
Resgatar o sentimento presente nas sessões da tarde dos anos 80 tem sido uma das buscas da sessão da tarde do século XXI. Eles sempre tentam colocar filmes que as crianças e pré-adolescentes de hoje possam lembrar quando estiverem com seus trinta e poucos anos. Filmes que podem ser considerados os marcos de uma era.

Em minha era, os anos 80 e o início dos anos 90, uma série de filmes que passaram na Sessão da Tarde e nos tempos áureos da Tela Quente - quando ela era quente mesmo e não morninha, com filmes que a gente já viu em algum lugar - transformaram-se em ícones, símbolos de um tempo em que o cinema para crianças, adolescentes e jovens era inteligente, intenso, profundo, divertido e inspirador. Afinal nós havíamos sido criados assistindo Vila Sésamo, os Muppets, o Balão Mágico, tínhamos ouvido Casa de Brinquedos, do Toquinho, a Turma do Pererê, A Arca de Noé, brincávamos de sela, pega-pega, esconde-esconde e tantas outras coisas diferentes de Teletubbies, Backyardigans e orkuts da vida.

Nós tivemos infância e vimos os Goonies procurando o tesouro de Willie Caolho. Prendemos a respiração com a tensão de Conta Comigo e rimos com Ferris Bueller enforcando aula. Queríamos namorar a Jennifer Grey. No caso das meninas, o Patrick Schwayze. Tentamos fazer um chicote com um fio de varal para sermos iguais ao Indiana Jones e gostamos de Richard Chamberlain sendo Alan Quartermain. Sim, vivemos as aventuras na telinha com filmes inesquecíveis, momentos únicos e personagens icônicos. Tudo isso ao som da Festa da Xuxa, que eu não tenho vergonha de admitir que assistia.
Isso fez com que formássemos um elo com estes filmes. Mais que a qualidade técnica, nossa geração tem uma ligação afetiva com a sétima arte. Ela nos ensinou sobre tudo. De guerras, com Rambo, ao sexo, com a Mulher Nota 1000, da ciência das viagens no tempo de De Volta para o Futuro à cultura oriental no Massacre no Bairro Japonês. Descobrimos o mundo por meio do cinema na nossa infância.

E aí vem o J.J. Abrams sob a tutela do Spielberg e faz Super 8? E você, que passou por tudo isso que eu descrevi aí em cima em sua vida pensa que pode sair impune da sala de cinema depois de ver isso?
Super 8 não é um tributo a Spielberg. É um tributo às tantas Sessões da Tarde que J.J. Abrams deve ter assistido nos Estados Unidos, vendo filmes que formaram sua infância e adolescência. Uma homenagem a Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Tubarão, Conta Comigo, Os Goonies, Curtindo a Vida Adoidado, Blade Runner, Karate Kid, E.T, O Último Grande Herói e tantos outros filmes que marcaram uma época - produções que se tornaram símbolo de um período em que o cinema precisava de novos heróis.

A história de Super 8 gira em torno de um grupo de meninos que estão fazendo um filme de zumbis e enquanto gravam testemunham o acidente de um trem da Força Aérea americana. A partir deste ponto a cidadezinha fica cheia de militares e pessoas e animais começam a desaparecer misteriosamente.
Joe (Joel Courtney) é um destes meninos. Ele perdeu a mãe recentemente e tem uma relação distante com o pai, vivido pelo sempre bom Kyle Chandler (o galã de King Kong). Joe não sabe o que está acontecendo. Ele só sabe que gosta de Alice (Elle Fanning) e que tem que maquiá-la como uma linda zumbi. Joe parece cansado e distante, como se testemunhasse o mundo de fora, querendo, na verdade, estar dentro dele.
Abrams poderia fazer de Super 8 um filme fetiche como Tarantino faz, pegando um estilo e mimetizando-o em busca de um novo significado. Não. Abrams tem uma mão diferente, usando as referências não para criar algo que já existe, mas fazendo uma coisa nova. Uma coisa para que a atual geração de crianças que assistem a sessão da tarde possam, como nós, dizer que havia cinema de verdade feito para eles na segunda década do século XXI.