Por João Thiago da Cunha Netto
Loopings temporais rendem boas histórias. O velho e bom mote “O que aconteceria se...” sempre dá para escrever algo interessante. Gerard Way sabe usar este recurso em The Umbrella Academy – Dallas (Devir – 2011), quando envolve os membros da academia do professor Hargreeves na guerra do Vietnã e na morte do presidente Kennedy.

A história começa logo depois do embate com a Suíte do Apocalipse. Da mesma forma que na primeira história, os personagens são pessoas perdidas no mundo. O homem em forma de animal, a sina de Spaceboy, preso a um corpo de gorila, o animal em forma de homem, Kraken. Rumor, cujo poder é manipular as pessoas pelas palavras, está muda e Número 5 deslocado no tempo. Pessoas que nunca foram aquilo que sempre quiseram ser. Aliás, nós mal sabemos quais são suas verdadeiras motivações. No entanto, eles terão que fazer aquilo que sempre souberam fazer: salvar o mundo.
O envolvimento dos heróis, se é que se pode chamar este grupo assim, se dá graças ao looping temporal que é todo o mote da história. Quando o Número 5 não cumpre uma missão para uma organização criminosa temporal chamada Temps Aeternalis, eles vão buscá-lo no presente para exigir que ele cumpra com aquilo que foi acordado.
A partir deste ponto, assassinos temporais, psicopatas viciados em açúcar (com máscaras de bichinhos inofensivos), múmias ancestrais e um mundo destruído por uma bomba atômica vão criando vida e morte no elétrico e rápido texto de Gerard Way e no vertiginoso e belo desenho do brasileiro Gabriel Bá. Pelo trabalho no primeiro volume da série, Bá ganhou o Eisner (o Oscar dos quadrinhos) de melhor desenhista, e nesta segunda parte não fica atrás.

Ambos estão muito melhores agora. Way, que já provou na Suíte do Apocalipse que sabe contar uma história, aumenta ainda mais seu domínio nesta área. Lidando com personagens que já conhece e um universo que não lhe é estranho, ele consegue contar a história em um ritmo frenético, com pausas contemplativas e diálogos carregados de clichês inteligentes. Destaque para a cena em que Número 5 explica para Rumor quem ele é. O contraste entre a delicada poesia da sonoridade das palavras e a violência impregnada nelas mostra toda a capacidade de ironizar presente em Way.
Porém a história em quadrinhos não é nada sem o desenhista e é nas mãos de Gabriel Bá que os personagens ganham vida. Mais que o traço tradicional, Bá imprime uma veia caricata, ao mesmo tempo que iconoclasta e perversa. Não poupa Spaceboy e sua grande barriga ou a cicatriz presente no pescoço de Rumor. Dá o rosto de Bob Dylan a um Deus cowboy e brinca com os clichês escritos pelo parceiro, como a sequência no Vietnã ou os ângulos a lá Tarantino durante a tortura de Seànce.
Por fim, tudo o que resta ao grupo de desajustados é lutar para que a humanidade não seja destruída. No fundo, tudo o que buscam é recuperar sua humanidade, tornar-se mais que apenas “super-heróis”. Way nos mostra o lado ruim de ser superpoderoso. Mais cedo ou mais tarde, tudo o que você vai querer é apenas ser mais um na multidão. Way, no final, em seu posfácio, questiona: “O que poderemos fazer depois disso?” É uma pergunta cabível aqui. A resposta? Só o tempo e a criatividade destes dois artistas poderão dizer.