Por Mônica Melo
Se você me perguntasse se eu gostei do filme dirigido por Terrence Malick, A Árvore da Vida, a resposta seria sim. Se você me perguntasse se eu achei um filme bonito, eu também responderia sim. Agora se você me perguntasse se eu entendi, a resposta inicial, no entanto, seria não. Mas não pense que considero isso ruim, um defeito ou demérito. A meu ver, a intenção do filme é justamente essa. Sobre o que é o filme? É simplesmente sobre a vida e como já disse Clarice Lispector, “viver ultrapassa qualquer entendimento”.

O filme inteiro é o que se poderia chamar de subjetivo. Houve quem adorou, houve quem dormiu, houve quem amaldiçoou a hora em que saiu de casa para ir ao cinema. Um amigo meu, que assistiu ao meu lado, adorou a edição de imagens. Eu não. Na minha modesta opinião de espectadora, acho que é justamente a edição o único pecado do longa existencialista. Apesar de entender a intenção da opção por cortes abruptos, tomadas gigantes (põe gigantes nisso) e algumas transições bem suaves, em alguns momentos eu me senti vendo uma apresentação de Power Point. A proposta não é convencional, mas acho que em nenhum momento a intenção era essa.
Eu saí do cinema com uma grande interrogação sobre a cabeça, mas enquanto dirigia para assistir uma aula, uma lâmpada enorme se acendeu sobre minha cabeça e eu finalmente entendi. Ou seja, quem quer um filme pipoca, que não exija muito raciocínio, escolha outro. A Árvore da Vida é um filme de digestão lenta e ao sair do cinema você vai se sentir uma sucuri que acabou de comer uma vaca inteira e vai passar dias até que aquilo consiga descer. Outra coisa: é imprescindível ficar acordado durante todo o filme, coisa que muita gente não conseguiu.



O que eu tenho a dizer, sem estragar a surpresa de quem ainda não viu, é que não esperem uma estorinha linear. A Árvore é um filme sobre nada, é sobre o fluir da vida, é o primeiro filme sem tema e sem estória que já assisti: são simplesmente coisas da vida. Mostra o quanto a vida é grandiosa e ao mesmo tempo banal, que não adianta berrar, se descabelar, ela segue seu curso: os cães ladram e a caravana passa, mesmo que pessoas importantes para nós morram, como acontece no longa. Para mostrar bem isso que falei, ele intercala momentos Discovery Channel (como falou a editora e colunista do Fique Ligado Ingrid Heckler), exibindo a magnitude do universo bem como a pequenez de um núcleo familiar não muito incomum. A existência é mostrada como algo grandioso, mas a nossa nem tanto.


Voltando a criticar a edição, ela me deixou mais uma dúvida: o que o Sean Penn estava fazendo no filme? E o que o personagem do Brad Pitt poderia ter feito de tão grave e que não foi mostrado? Ele era meio surtado, mas já vi pais bem piores. O que levou o filho a se tornar o que se tornou? A morte do irmão? Mas todo mundo normal já perdeu alguém muito querido na vida, mas como falei, é cruel, mas a caravana passa. O próprio Sean Penn disse que quando leu o roteiro do filme ficou impressionado, foi o melhor que já leu em sua vida, mas quando viu o filme não entendeu o que seu personagem estava fazendo ali no meio. Ele chegou a dizer que a edição tirou muito da emoção do roteiro. Se a intenção era mostrar como nossas ações presentes se refletem no futuro, não deu. Mas acho que não era mesmo isso que o longa queria, porque na verdade a vida não é linear, nem todas as peças da nossa vida se encaixam agora e nem vão se encaixar nunca.
Resumindo: o filme retrata praticamente a história do universo, milhares de anos são mostrados, do big-bang ao fim do mundo. Mostra que a morte é normal, faz parte da vida e na melhor das hipóteses todos vamos passar por ela. Que muitas vezes a gente vai se sentir perdido diante dela, mas isso é problema nosso. É um filme para ser contemplado. Há economia de diálogos e não é a história de uma família e sim de todos nós. O filme não toma partido, explicitamente, sobre a dúvida da existência de Deus, mas pende bastante para o não. Quanto aos atores: aplausos para as crianças, o Brad Pitt está realmente feio de doer, mas muito bom no papel. Jessica Chastain também está perfeita. Mas não vou falar mais nada sobre os atores, afinal o foco do filme não é nenhum deles.