Por Mônica Melo
Eu vi A Noiva Cadáver, pela primeira vez, muito por acaso. Era um final de semana e “zapeava” pelos canais da TV quando parei em uma emissora especializada em animações. Estranhei aquele visual mórbido, pois não lembrava do filme, que foi lançado nos idos de 2005. Mas estranhamente eu não conseguia mudar de canal de jeito nenhum. Agora eu entendo o motivo: boa parte dos seres humanos sonha com um amor que supere tudo, até os limites da vida e essa produção nos permite acreditar nisso, pelo menos enquanto ela estiver na tela. Peço aos leitores que perdoem a melação, mas estou em uma fase particularmente romântica - o que não acontece com frequência, então vou aproveitar.

Em primeiro lugar, se você viu o filme há pouco tempo, sente que aquilo lhe parece muito familiar: é a assinatura indelével de Tim Burton. Seja nas cores, nos planos, tudo lembra que lá tem um dedinho ou ossinho dele. O diretor, conhecido por sua excentricidade criativa e com um pé no bizarro, explora bem o humor negro. Aliás, quer algo mais bizarro que uma noiva morta?
O enredo não é novo nem original. Basta dizer que se baseia em um conto russo do século XIX. No longa, Victor (com voz de Johnny Depp) é um inseguro e atrapalhado filho de açougueiro que enricou e está de casamento agendado com Victoria (Emily Watson), uma jovem de família tradicional aristocrata. Os pais da noiva veem no matrimônio dos dois a solução para seus problemas financeiros. Porém, acidentalmente Victor se casa com a Noiva Cadáver (Helena Bonham Carter), que o leva para conhecer a Terra dos Mortos. Desejando desfazer o ocorrido, para poder enfim se casar com Victoria, Victor aos poucos percebe que a Terra dos Mortos é bem mais animada do que o meio vitoriano em que nasceu e cresceu.


Ineditamente o mundo dos mortos ganha destaque nesta animação, se tornando um local muito mais legal que o dos vivos, apesar da aparência em descomposição não ser tão bacana assim. Mas a ousadia não passa muito daí. Mesmo bobinho o filme é cativante e até a escolha pelo charmoso e trabalhoso stop-motion parece ter sido bastante pensada e acertada, tudo para criar a atmosfera ideal e dar “vida” aos eventos da história com muita competência e unicidade. O humor negro e a crítica a valores hipócritas impostos pela sociedade ficaram melhor desenvolvidos e apresentados dentro desta técnica que, acima de tudo, colaborou com o ritmo, sem nenhum atropelo.
É um filme que merece respeito, é bonito, delicado e romântico - mesmo em meio aos tons escuros consegue aquecer o coração de quem assiste. Vale a pena ser visto com calma, se deliciando frame a frame com sua riqueza de detalhes.