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  • Zumbis - O Livros dos Mortos I Crítica

Por Ingrid Heckler

Publicado em: 25/10/2011

 

 

Eles são determinados, nunca se cansam ou param. Sem pressa, e a passos realmente lentos, caminham em busca de um único objetivo: comer... Você. Opa! Muita calma nessa hora, pois a afirmação tem outra conotação, esqueça qualquer analogia sexual e atente para o literal. Eles querem a sua carne, seus músculos e seus miolos, ou seja, você é o Big Mac com molho especial. Se atacado fuja ou atire na cabeça, a deles de preferência, e nada de perder tempo atirando nas pernas, coração e afins. Se sobreviver se certifique que não foi mordido, pois uma dentada é fatal e em poucas horas será a sua vez de querer morder alguém. Parece que o parágrafo acima define bem o que é a figura de um zumbi, não é?

 

Pois se seu conhecimento sobre esses seres se resume a isso você não sabe de nada. Mas não há motivo para pânico, pois alguém que gosta muito deles fez o que eu chamo de a bíblia dos semimortos ou simplesmente: Zumbis – O Livro dos Mortos. Eu, uma fã das criaturas, acreditava ter uma bagagem bacana sobre o assunto, mas quem o tem de verdade é o autor desta obra, Jamie Russell. Ele conseguiu reunir em suas 368 páginas uma quantidade absurda de informação costuradas por uma narrativa ácida, repleta de sarcasmo e análises interessantes – até brilhantes – sobre o tema, ou seja, sua obra é diversão garantida aos que desejam conhecer o universo dos zumbis e um deleite para quem já curte o tema.

 

 

Fatos históricos e os mais diversos dados, que vão desde curiosidades bizarras a uma profunda dissecação sobre a origem zumbi, revelam uma poderosa pesquisa realizada pelo autor e o resultado é uma verdadeira biografia destes seres, mas com cara e jeito de um guia prático. Temos aqui relatos de obras trashs regadas a sangue de ketchup até as verdadeiras obras-primas, além disso temos a presença de grandes nomes como o mestre George Romero, as incursões dos zumbis em outros gêneros - mostrando que os semimortos possuem talento e versatilidade, desde o terror mais gore e apavorante até as comédias mais irresistíveis.

 

Entre as várias reflexões levantadas na obra uma me chamou atenção, que embora existam mais de 500 filmes destas “simpáticas” criaturas elas nunca foram levadas muito a sério. “Enquanto vampiros, lobisomens e até assassinos seriais demandam respeito, o zumbi nunca é visto como algo mais que um bufão que se arrasta às margens do cinema de terror, apodrecendo e fazendo sujeira” – palavras de Russell na introdução do livro. Ele vai além: “Zumbis são a massa plebeia do cinema de terror, criaturas sem almas que perambulam sem personalidade nem propósito – uma paródia grotesca do fim que aguarda a todos nós”.

 

Uma das muitas questões que o livro de Russell levanta é sobre a ironia da marginalização deste personagem, tão presente no consciente coletivo. Aliás mais que uma ironia, uma verdade oculta pelo incomodo que ele causa. Afinal este monstro evidencia claramente o medo da morte e, mesmo com tantas produções protagonizadas por ele, sua importância nunca é devida, pois quem quer valorizar algo que realmente assusta e que é a única certeza para todos? É compreensível. Contudo os zumbis foram evoluindo em sua mensagem e acabaram também se tornando “um potente símbolo do apocalipse”. Como assim?

 

A imagem dos mortos-vivos começou a surgir em diferentes produções como uma grande analogia para o caos criado pelo homem. Escravidão, racismo, guerra fria, desemprego, intolerância, consumismo, aids, paranoia nuclear – todas essas questões foram abordadas em obras que tiveram como cenário a visão apocalíptica e doente dessas criaturas, resultado do comportamento destrutivo e aniquilador dos vivos. Obviamente, mesmo relacionado a uma temática mais cabeça os zumbis nunca deixaram de ser uma boa diversão.

 

 

Aliás, há na obra uma curiosidade muito hilária e que preciso compartilhar. Quando os filmes de zumbis começaram a ser lançados nos EUA com uma pegada mais visceral o personagem ainda era visto apenas como uma figura boboca e que não causava tanto medo. Tanto é que longas com este tema eram exibidos em matinês. Contudo, em 1968 isso mudou definitivamente. Na ocasião era lançado nos cinemas o filme de estreia de George Romero, A Noite dos Mortos-Vivos, e erroneamente a produção foi confundida com a ideia que se tinha e o impacto causado no público e na imprensa foi arrebatador. O relato de um dos jornalistas presentes, Roger Ebert do Chicago Sun-Times, é um excelente termômetro da loucura que foi esta sessão. Confira:

 

As crianças na plateia estavam estupefatas. O silêncio era quase total. O filme perdera seu temor encantador havia muito tempo e, inesperadamente, tornara-se aterrorizante. Uma garotinha, talvez de nove anos, sentada na fileira ao lado, estava imóvel em sua poltrona, chorando. Acho que as crianças menores não entenderam o que as atingiu. Já tinham assistido a filmes de terror, mas aquilo era outra coisa. Eram zumbis que comiam pessoas – você podia ver o que eles comiam. Havia menininhas matando suas mães. Havia gente pegando fogo. O pior de tudo, ninguém saía vivo - até o herói era morto. Senti terror de verdade no cinema do bairro. Vi crianças que não tinham a que se agarrar para se proteger dos temores e do medo que sentiram.”


É tão forte e engraçado esse registro, primeiro pela força da proposta de Romero e pela quebra de uma expectativa, que certamente deve ter causado muitos traumas, principalmente ao público que pegou literalmente uma sessão do inferno (risos).

 

Lembrando que o livro de Russell foi publicado nos EUA em 2005 - e só em 2010 foi lançado aqui no Brasil pela Editora Barba Negra, selo da LeYa Brasil. Além de tudo o que já foi dito a edição brasileira ainda possui um extra muito especial: uma filmográfica zumbi completa, com todas as produções destas criaturas lançadas em circuito nacional, a lista conta com a ficha técnica de cada longa-metragem e é filme pra caramba. A edição gráfica do livro é outro show a parte, fotos emblemáticas recheiam as páginas com muitas imagens viscerais e escatológicas. Quem gosta ou quer conhecer este mundo “encantado”, Zumbis – O Livro dos Mortos é mais que recomendado e deve ser devorados por todos àqueles que curtem este universo.

 

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