Por Mônica Melo
Em primeiro lugar, para chegar a essência desse filme, é necessário uma dose de sensibilidade extra de quem assiste. Uma sensibilidade que nasce da identificação. De quem, se identificando, finalmente se sente compreendido. Não para entender, mas para sentir o filme O Palhaço, de Selton Mello em cartaz desde o último final de semana no Brasil, é necessário, como disse o poeta: “um bocado de tristeza”. Precisa saber bem o que é uma bela depressão. Não pode ser de ouvir falar, mas viver o dilacerar das noites insones, o pânico das tarjar pretas, a dor da incompreensão de achar, que o que na verdade é uma doença, não passa de frescura. Só entende o olhar perdido do personagem de Selton Mello quem já viu o mundo pelas mesmas cores que ele, com as mesmas lentes que ele.

Uma confissão minha se faz necessária antes de continuar a escrever: eu já tomei muito antidepressivo, anos, e já tentei fazer terapia milhares de vezes (não tenho saco e largo no meio) e por isso entendi e senti exatamente o tortuoso percurso que a personagem faz da escuridão a luz. E assim como com a personagem, não foram as tarjas pretas que me curaram, por isso me senti tão a vontade com o longa. Selton e Paulo José interpretam a dupla de palhaços Pangaré e Puro-Sangue, ou Benjamim e Valdemar. Eles são a principal atração do Circo Esperança. Apesar de levar o público às gargalhadas, Benjamim entra em crise e sai em busca de sua própria identidade, cruzando com as mais insólitas figuras pelo caminho.
Dilacera o olhar Benjamim: ele é a imagem mais pura de alguém que se perdeu em si mesmo. Que viveu tantos anos automaticamente que não sabe mais quem é. É a história clássica do palhaço que faz o mundo sorrir, mas não consegue encontrar seus próprios motivos para isso. O Selton está perfeito nesse papel, com uma interpretação limpa, pura, transparente, sem afetações, sem firulas, sem mentira. A personagem precisa se afastar do circo para perceber o quanto gosta dele. É como alguém que precisa se afastar do quadro para vê-lo melhor. É necessário, pouco ou muitas vezes, olhar nossa vida de fora, sob uma nova ótica para perceber que na verdade a gente gosta mesmo de viver assim. A história de O Palhaço é essa: um conto de reencontro consigo mesmo.


O filme derrama toda essa sensibilidade sem ser chato, sem ser piegas, pode levar as lágrimas, mas não parece ser essa a intenção. Pior do que tristeza, Benjamim padece da mais pura falta de emoção na vida: ele não está feliz, não está triste, não está com raiva, ele não sente nada. Ele se perdeu e precisa se reencontrar, mas ninguém pode dizer a ele como fazer, nem ele pode tomar decisões pautadas nas necessidades de outras pessoas: ele precisa ir.
Já deu para perceber que gostei do filme, mas tem uma coisa ainda que achei muito legal. São as participações especiais. O Selton Mello rendeu uma homenagem a história do humor no Brasil e fez uma carícia na memória de quem apreciou o gênero na TV. Muita gente lembra do Moacyr Franco cantando e esquece ou nem sabe que ele também é um grande humorista e tem uma participação pequena, mas hilária no filme. Aliás muitas foram as pequenas e hilárias participações que deram um clima aconchegante e momentos de gostosas risadas no filme Tonico Pereira, Jorge Loredo (mais conhecido como Zé Bonitinho), Fabiana Carla, Jackson Antunes e Ferrugem. A trilha regada a Nelson Ned, Altemar Dutra e Lindomar Castilho nos lembra que não é preciso muito para fazer as pessoas felizes, uma lona furada e um coração aberto já dão conta.

Eu poderia fazer uma tese de psicologia sobre o filme, mas você iria dormir, então vou resumir: a fotografia é belíssima, abusa dos tons de terra e vermelho. As atuações são todas impecáveis (destaque para elenco infantil), o roteiro é gostoso e aquece o coração. O filme para nos fazer pensar que ser feliz não precisa ser difícil e que muitas vezes é necessário parar e pensar sobre ela. Se o filme tem um mérito principal é o de ter uma estética bacana, ser bonito sem ser chato. E finalmente um filme com um final realmente feliz. Faz tempo que a gente não vê isso por aí, nem na vida real nem na ficção.