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  • Um Dia I Crítica

Por Mônica Melo

Publicado em: 02/12/2011

 

Devo adiantar que vai ser muito difícil falar desse filme sem estragar o final. Não é um final tão imprevisível assim, mas é daqueles que matam de raiva pessoas como eu. Para começar algumas informações didáticas. Um Dia é a adaptação do romance, best-seller internacional,  escrito por David Nicholls. Apesar do título, a história leva mais de vinte anos para ter seu desfecho, que nada mais é que a hora em que se precisa pensar no seu recomeço. O enredo é bom justamente por que causa vários sentimentos no espectador que vão da raiva a ternura, passando pela identificação.

 

 

Na trama Dexter Mayhew e Emma Morley se conhecem em 1988. Ambos sabem que no dia seguinte, depois da formatura na universidade, precisam seguir caminhos diferentes. Mas, depois de apenas um dia juntos, não conseguem parar de pensar um no outro. Os anos vão se passando e cada um segue sua vida isolada, inclusive bem diferente do que sonhavam. Na verdade eles se tornam pessoas bem diferentes do que queriam. Apesar desse afastamento eles não conseguem se desvencilhar da lembrança, do sentimento muito especial que os arrebatou naquela primeira noite, daí surge uma extraordinária relação entre os dois. Ao longo dos vinte anos seguintes, flashes do relacionamento deles são narrados, um por ano, todos no mesmo dia: 15 de julho. Dexter e Emma enfrentam disputas e brigas, esperanças e oportunidades perdidas, risos e lágrimas. Eu não li o livro, mas quem leu disse que não foi preciso muito esforço para ser transformado em filme.

 

A fotografia é majoritariamente fria, o que cria uma aura enfadonha, rotineira, triste, sem graça para a vida dos protagonistas. As atuações estão muito boas, tanto Jim Sturgess quanto Anne Hathway (Dexter Mayhew e Emma Morley respectivamente) dão o tom certo aos personagens chatos e inseguros, sem arroubos dramáticos, com disfarces mal disfarçados, dos quais enchemos nossas vidas e deixamos as oportunidades de sermos felizes escaparem. Você é capaz de amá-los e odiá-los na mesma cena. O filme fala basicamente do tempo: em como ele nos transforma, às vezes nos redime, nos marca, nos mata, nos reconstrói, nos ensina e o pior, quantas vezes deixamos ele passar sem se dar a sua real importância e desperdiçando-o impiedosamente. Isso torna o filme tão realista que dói. Quem não é capaz de lembrar de algo que faria diferente, de uma oportunidade que deixou passar, de um tempo que perdeu?

 

 

Dexter e Emma demoram muito, muito mesmo para descobrir que eles só são felizes quando juntos, que só o outro consegue arrancar o que de melhor eles tem. Na realidade essa certeza era sempre velada e encoberta pelo medo de estragar a relação de amizade tão profunda, jogar todo aprendizado de um pelo outro na lixeira em nome de um relacionamento que não foi feito para durar. A relação dos dois se constrói ao longo de anos vendo as vitórias e fracassos e o que cada um tinha de melhor e pior. Mais que amantes, eles são grandes amigos. Nenhum dos dois é capaz de rompantes românticos, de cenas grandiosas em que o mundo se rende a invencibilidade do amor e a câmera gira em torno do casal apaixonado. Os dois são contidos, Emma um pouco menos, como é de praxe, as mulheres tem mais dificuldade de manter os sentimentos dentro de si, mas mesmo assim, com um meio sorriso, ela disfarça e segue em frente quando o que é dito não é exatamente o que ela queria ouvir.

 

É um filme melancólico sobre oportunidades perdidas e fracassos, mas também sobre olhar bem as pessoas que queremos manter por perto. Apesar de se parecer com uma comédia romântica banal, não é, tem reviravoltas surpreendentes e os personagens são incrivelmente ricos em termos de construção. Os dilemas são sinceros e nos mostram que a felicidade não é um objetivo estático. Ela pode mudar a cada dia e se constrói ao longo do tempo e, mesmo durante uma temporada de flores aparentemente infinita, dias ruins nunca deixarão de vir.

 

 

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