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Publicado em: 02/03/2010

 

Existem filmes, que só pela sinopse já anunciam fortes emoções ou lágrimas à vista. Lembro que pensei isso quando li a respeito do filme Á procura da felicidade, com Will Smith, história baseada em fatos reais, e realmente foi assim. Pois bem, tive a mesma impressão a respeito de Um Sonho Possível (The Blind Side, título pessimamente traduzido, ou melhor, adaptado), contudo esta produção não chega ao nível de dramaticidade deste outro. O que temos aqui é um filme igualmente inspirado em acontecimentos verídicos, mas que optou por trabalhar de forma leve uma trama que tinha subsídios para ser bem mais realista, ou seja, houve uma suavização dos fatos, o que não necessariamente atrapalhou o filme e nem tirou aquela sensação boa quando ele acaba. Afinal, ele foi feito para isso.

 

Pôster do filme

 

O longa-metragem narra a história de Michael Oher (Quinton Aaron), um jovem negro vindo de um lar destruído e que é ajudado por uma família branca, liderada por Leigh Anne (Sandra Bullock), que acredita em seu potencial. Ela, fazendo o estilo perfeccionista, se apresentada como uma mulher repleta de energia, dinâmica, supermãe e profissional de sucesso, ou seja, o modelo dondoca durona e rica, que caracteriza bem os atributos da sociedade sulista dos EUA. Temos aí o primeiro símbolo norte-americano pontuado no filme, o segundo (obviamente) é o próprio Michael, representando a parte carente e miserável, o outro lado gritante da moeda.

 

O rapaz que passou por inúmeros traumas e dificuldades surge de maneira perdida e demonstrando um déficit emocional e educacional. Perambulando pelo colégio, que seu amigo iria estudar consegue uma vaga, que lhe permite a mesma oportunidade. Lá ele constantemente é observado por Leigh Anne, que a princípio pensa em fazer uma boa ação, chamando Michael (ou Big Mike) para dormir uma noite em sua casa. Contudo, ela acaba criando uma forte empatia por ele, o bastante para torná-lo membro de sua família, que o aceita como tal. Os incentivos e educação que ela oferece ao jovem colaboram para que ele se torne um grande atleta, e um dos maiores destaques da atualidade do futebol americano.

 

Leigh Anne e Big Mike

 

(Spoiler - se você ainda não viu o filme não é interessante ler o parágrafo abaixo)

 

Levemente o filme levanta a polêmica ao qual a verdadeira Leigh Anne passou, sobre suas verdadeiras intenções ao adotar Michael. Entretanto para entender isso, é preciso contextualizar esta realidade tão americana. Este lar perfeito se apresenta sob a ótica de boas pessoas que distinguem o certo e o errado dentro de um ideal político, que divide a sociedade entre republicanos e democratas. Assim, uma vez que esta família ajuda a financiar e torcer por times de futebol (conectados com seus princípios e ideais), questiona-se, portanto, se adoção foi um investimento dentro de uma estratégia para melhorar o esporte. Parece surreal, mas é algo que acontece por lá. O filme, como já disse, trata desse fato de maneira rápida e sem grandes aprofundamentos, deixando claro um posicionamento a favor de Leigh Anne. Um tanto maniqueísta? Provavelmente.

 

O interessante é que fica em aberto, sutilmente, mas fica os motivos pelo qual Michael aceitou esta situação, tendo sido por pura gratidão, afinal querendo ou não ele foi ajudado. Ou por que realmente acreditou na mão adotiva.

 

**************

 

 

 

Trabalhando emblemas fortes da cultura americana como, a influência política, esporte e superação, o diretor (e também roteirista) John Lee Hancock (O Álamo), conseguiu desenvolver um drama com tiradas de humor, romanceando sua verdadeira realidade, transformando uma história que poderia ter tido um resultado semelhante ao da produção Preciosa. Mas, a ideia aqui foi pegar leve mesmo, fazendo um filme fácil e agradável de ver e que nisso é extremamente competente. Porém, possui um roteiro previsível e raso, o que pode dar uma sensação de déjà vu, pois existem muitas produções parecidas, o que demonstra que o formato aplicado aqui foi claramente comercial.

 

A Família

 

Um Sonho Possível explica logo em seu início sobre o ponto cego, um momento em que o jogador não enxerga se os adversários estão perto ou não de derrubá-lo, tendo que confiar em seus colegas de time, responsáveis por sua defesa. Embora seja uma forma comum de narrar, explicando logo de cara o gancho do título (que originalmente teria a tradução para O lado cego), acho coerente essa abordagem, pois se trata de um filme que será exportado e necessita explicar as outras culturas que não conhecem o esporte.

 

O momento é de treino

 

O elenco do filme foi bem escolhido, temos Jae Head, o que faz o irmão mais novo S.J. Tuohy, além de Tim McGraw, a excelente Kathy Bates, Quinton Aaron, Lily Collins e claro Sandra Bullock, que conseguiu entrar num personagem dramático, ainda que, dosando algum humor aqui e ali. Mesmo diante de um roteiro com claras limitações de aprofundamento ela conseguiu chegar até onde nunca havia tido grandes oportunidades.  Sua composição sulista agrada e como ela mesma disse em entrevistas sobre seu papel, não crê que tenha feito algo fora do comum, mas tem a certeza de que se entregou e fez o melhor que estava ao seu alcance. Resta-nos saber se para a academia esse melhor será também registrado por eles, isso porque, ela está concorrendo (pela primeira vez) como melhor atriz por este papel, ao Oscar 2010. O longa também foi indicado a melhor filme.

 

Vale salientar que essa produção agradou e muito o público americano, possuindo uma bilheteria invejável, não chega a ser um Avatar, mas competindo na mesma época conseguiu arrecadar bem: em torno de 219 milhões de dólares, tendo custado US$ 29 milhões. A estreia do longa está prevista para 19 de março.

 

Trailer de Um Sonho Possível.

 

Entendendo a proposta do filme, acredito que ele cumpre exatamente o que promete. Uma adaptação (proveniente do livro The Blind Side: Evolution of a Game, de Michael Lewis), que embaça seus pontos graves, os mais reais, procurando ressaltar o lado positivo da história, ou seja, a superação através da bondade arraigada ao poder do amor, quando se vive ou descobre uma família. É comercial? Sim. Bem clichê? Também. Mesmo assim ele consegue satisfazer a audiência, sendo agradável e inspirador.

 

 
E aí, Sandra Bullock leva ou não leva o Oscar para casa?

 

 

Por Ingrid Heckler

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