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  • Tomboy I Crítica - Quando uma garota se sente um garoto

Por Mônica Melo

Publicado em: 12/01/2012

 

Algumas pessoas têm o hábito de glamourizar a infância e esquecer o quanto os seres recém-chegados ao mundo podem ser cruéis, bem como seus dilemas mais íntimos Isso é da própria natureza humana. Começa já na infância a capacidade de excluir e de ridicularizar o que lhes parece diferente. O lado bom é que os seres humanos crescem e aprendem. O ruim é que nem todos eles. Eu fui gordinha e sei bem o que é ser humilhada por uma condição que você não pode mudar e talvez nem queira, porque é aquilo que lhe define como indivíduo. Infelizmente, as pessoas não conseguem simplesmente aceitar isso e seguir cada um no seu quadrado. Parece que está no nosso DNA esse profundo desejo de infernizar a vida alheia.

 

 

O filme Tomboy tem essa árdua missão: tirar a infância do seu altar e mostrar toda sua crueldade, mas aqui em um caso bem específico. Ultimamente muito se discutiu sobre gênero e se ouviu falar em algo chamado transexualidade e é sobre isso que fala o longa. Você acha que as crianças perderiam a chance de achincalhar alguém com essa característica? De torturá-lo psicologicamente até o seu limite? Nunca.

 

No longa, uma família se muda para um novo bairro nos arredores de Paris. Laura, uma garota de 10 anos de idade, decide se apresentar como um menino a sua nova comunidade. A palavra tomboy, quer dizer originalmente garoto bagunceiro, mas passou a ser usada também a partir dos anos 90 para designar meninas que se comportam como meninos. 

 

Todo mundo conhece uma garota meio moleca que prefere andar e brincar com os meninos e que, quando adulta, bebe mais que as amigas, ou faz baliza como ninguém ou mesmo tem um repertório de palavrões invejável a qualquer habitué do baixo meretrício. Isso é comum. E não tem nada a ver com orientação sexual. Mas uma coisa é você ser mulher e ter algumas atitudes tidas como masculinas, outra coisa e bem diferente, é você se sentir um homem. O único problema é que você nasceu sem pintinho. No caso, Laura não apenas age como um moleque, ela se sente Michael (nome que inventou e usou para se apresentar a todos os novos vizinhos) e convence muito mais como garoto do que como garota. Tanto que até agora estou na dúvida de se a atriz Zoé Héran é mesmo uma menina (risos). No caso de Laura, ela sofre do que a ciência chama de Distúrbio do Desenvolvimento Sexual. Para entender melhor do que se trata, dê um Google nos nomes Bruce e Brian Reimer, cujo caso ganhou notoriedade em 2010.

 

 

 O filme conta bem a história. Fala de como os pais são cegos quando convém. A nossa grande dúvida no início do filme é se os pais dela sabem e até apoiam esse comportamento diferenciado ou se sequer o percebem.  Mostra também como o afeto em casa pouco tem a ver com a orientação sexual, mas acredito que o longa daria uma boa carga de munição para idiotas do naipe de Jair Messias Bolsonaro, deputado federal de terça a quinta e idiota em tempo integral. Ele disse em entrevista a Revista Época a seguinte pérola: “sou preconceituoso, com muito orgulho”. A frase está retirada do contexto, mas no contexto original diz exatamente a mesma coisa, algo como “eu sou fascista e deveria estar na cadeia”. Bom, mas esse artigo não é para falar mal desse acéfalo, então voltemos ao filme.

 

Posso dizer de primeira mão que os pais poderiam ser mais atentos ao comportamento do filho, que conseguiu manter por tempo demais esta dupla identidade. Mais do que expô-lo a humilhação pública e violência dentro do cruel mundo infantil, eles poderiam ter procurado uma abordagem menos agressiva. A menina só se vestia como menino, só andava com meninos, cortava o próprio cabelo como menino e os pais não viam nada de mal nisso. Mas quem sou eu para julgar os pais. Realmente não há nada de mal nisso, o mal está nas consequências sociais dos humores de uma criança mal orientada. Provavelmente a Laura também estava bastante infeliz com o fato de precisar viver uma mentira, ter uma vida dupla ainda tão jovem. Um pouco mais de atenção poderia ter levado a criança a compartilhar suas angústias.

 

POSSÍVEL SPOILER ABAIXO – LEIA POR CONTA E RISCO


O filme não mostra como a situação de Laura foi resolvida. No início tudo leva a crer que sim, pela naturalidade com a qual os pais lidam com o temperamento diferente da garota. Parece que eles encaram o comportamento masculino como uma questão mesmo de temperamento. Na verdade, o longa termina exatamente quando os problemas reais começam. Não é um melodrama, mas é um filme triste. O diretor preferiu retirar todo o drama dos diálogos e colocá-los na iluminação, nos silêncios longos, na luz. Isso vai cortando seu coração e você vai compartilhando a silenciosa dor de Laura. Laura sofre por mentir e para manter a mentira. É um bom filme para fazer ruir preconceitos sobre aquilo que não sabemos explicar. Aplausos para a garota que faz o papel da irmã casula da protagonista, manda muito bem a garota.

 

 

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