Por Ingrid Heckler
O galã George Clooney disse uma vez, em uma entrevista sobre o filme Conduta de Risco, o que achava de sua companheira de trabalho, a atriz Tilda Swinton. “Ela é uma atrevida, eu a “odeio”. Você deve compreender, né? Afinal ela é capaz de fazer tudo, qualquer tipo de papel, então claro que eu a “odeio” por isso”. E realmente o Sr. Clooney estava coberto de razão. Tilda tem uma capacidade de transformação incrível, de evidenciar por meio de sua interpretação uma verdade absurda – quem a vê em cena acredita em cada gesto ou palavra sua. A imagem andrógena colabora para isso, assim podemos imaginá-la das mais diferentes formas, ela é realmente a matéria-prima perfeita para executar seu trabalho com uma versatilidade admirável e digna de efusivos aplausos.
Se você tem dúvidas disso é só observar os diferentes papéis desenvolvidos ao longo de sua carreira, como o anjo Gabriel em Constantine, Sal em A Praia, Feiticeira Branca em As Crônica de Narnia, a fria Karen Crowder no já citado Conduta de Risco (papel que lhe rendeu um Oscar), Elizabeth Abbott em O Curioso Caso de Benjamin Button e por ai vai. Parece que não há limites para Tilda, ela realmente pode fazer tudo, como bem disse o sábio Sr. Clooney.
Pois é, abertura acima é mais do que justa afinal em seu novo filme, Precisamos Falar Sobre O Kevin, a atriz dá um show – uma pena que ela não concorre ao Oscar, aliás , que bola fora da acadêmia excluir ela da lista de indicados este ano. O filme em questão, embora trate de um tema já tão trabalhado em outras produções, jovens psicopatas e violentos, traz o assunto em sua melhor abordagem e desenvolvimento. Posso dizer, sem dúvida alguma, que foi o melhor longa-metragem que vi sobre esta temática.
**Cuidado – Spoilers A Vista**
Na trama Eva (Tilda) é mãe de Kevin e a relação dos dois sempre foi conturbada, mas não de uma maneira escancarada e sim contida, quase que como um segredo entre eles. Kevin mostra desde cedo para mãe sua verdadeira raiz, seu lado obscuro, que na realidade traduz o que ele é: um psicopata. Ela sente algo errado, ela sabe. Porém como dizer isso para alguém? Como expressar com todas as letras que seu filho não tem um problema, mas que ele é simplesmente ruim? Ela sente e, como toda mãe, tenta modificar isso, mesmo diante da dificuldade que existe no relacionamento dos dois. Ela sofre em silêncio e espera ver alguma mudança nele.

É angustiante demais ver o sofrimento de Eva, desde sua gestação, criação do menino, até a pós-tragédia. O filme nos faz pensar muito na responsabilidade de ser mãe no final das contas. Assumir este papel requer vocação, força e será algo que você, querendo ou não, terá que carregar e enfrentar a sua vida toda. Aliás, quebrando um pouco a análise aqui, o filme serviria muito bem como uma boa campanha de controle de natalidade, melhor que camisinha (risos).

A montagem do filme é maravilhosa. Sem uma narração linear somos sempre levados para diferentes épocas da vida de Eva, acompanhando assim sua saga. A história se apresenta como um quebra-cabeça, pois as lembranças que a personagem carrega, dos eventos que a levaram a sua situação atual, são obviamente fragmentados, assim como ela está em pedaços, então nada mais natural que eles sejam apresentados assim. Contudo é um quebra-cabeça que você sabe o final, mas aqui o que realmente importa é o durante - a essência da mensagem está em descobrir como tudo aconteceu. A trilha é irônica e expõe muito bem os sentimentos conflituosos que existem diante do que é real e da vontade de que as coisas fossem diferentes.
O longa, mesmo sendo um drama, consegue ser tenso em cada frame, melhor que muito suspense que existe por ai, com um roteiro inteligente que evidencia muito bem a complexidade deste relacionamento entre mãe e filho, e o quanto isso pode ser perturbador e devastador nos mais diferentes níveis – o final do filme revela muito bem isso.
Precisamos Falar Sobre O Kevin é um filmão escrito, dirigido e produzido por Lynne Ramsay. Na pele do terrível Kevin temos os excelentes atores mirins Rock Duer e Jasper Newell, além do ótimo Ezra Miller, que faz sua versão adolescente. No elenco ainda temos o sempre competente John C. Reilly. O longa está em cartaz desde 27 de janeiro e é super recomendado.