Publicado em: 05/03/2010
Receba com simplicidade tudo o que acontece com você – por Rashi.
A frase acima abre o longa-metragem dos irmãos Coen, Joel e Ethan (que escreveram, produziram e dirigiram o filme). Eles nos apresentam uma odisséia dramática, mas ainda sim com pontuações cômicas. O conflito principal do filme é como enfrentar uma série de eventos trágicos sem perder a sanidade, a fé e continuar com mesma tranquilidade de antes. E vai mais fundo, abusando e maltratando seu protagonista: uma pessoa comum com uma vida ordinária despreparada para enfrentar todo o caos. Religioso, que se diz comprometido com tudo o que aprendeu e acredita. Pois é! Creio que esse seja, a grosso modo, o drama vivido pelo judeu e professor Lawrence 'Larry' Gopnik (Michael Stuhlbarg), que sempre fez tudo de acordo com os bons costumes e de repente se vê envolvido em situações difíceis e que fogem a sua compreensão.

Pôster do filme.
Assim em 1967, Larry, responsável por dar aulas de Física na Universidade de Midwestern, é informado que sua esposa Judith (Sari Lennick) o está deixando. Ela apaixonou-se por um de seus colegas, Sy Ableman (Fred Melamed), que aos seus olhos, é alguém muito mais interessante do que seu marido. A família de Larry também não é lá essas coisas: seu irmão Arthur (Richard Kind) mora em sua casa e dorme no sofá; seu filho Danny (Aaron Wolf) é um estudante problemático e rebelde; e sua filha Sarah (Jessica McManus) pega frequentemente dinheiro de sua carteira para fazer uma plástica no nariz. Uma carta anônima também ameaça sua carreira na universidade. Larry, então, decide pedir conselhos a três diferentes rabinos que poderão ou não ajudá-lo, diante de tantos problemas.
Em sua busca por respostas, ele procura as pessoas que são sua referência à sabedoria e ajuda maior, tudo para tentar superar cada decepção minuciosamente trabalhada no filme. Isso por que a todo o momento Larry é exposto a diversas situações negativas, sejam de constrangimento, atormentação, frustração ou medo. Ele realmente está vivendo a pior fase de sua vida. O pior de tudo é que cada vez fica mais claro que sua existência é um conjunto de eventos sem sentido, em que embora tenha um emprego e uma família ele nunca fez nada de concreto, algo que mostrasse quem realmente é. Na verdade, sua personalidade é fraca, não há consistência em seus atos, falta atitude, um exemplo é o fato dele nunca conseguir expor aquilo que sente, ele tenta falar, mas não consegue, pois as outras pessoas sempre tomam a frente e o interrompe.
A trilha sonora trabalhada no filme é perfeita, destaque para a música Somebody to Love (de Jefferson Airplane), que se encaixa como a verdadeira mensagem sábia ao protagonista, pena que só seu filho e outras pessoas a escutem, pois ele mesmo em nenhum momento o faz. Reparem: “Quando a verdade se revela mentira e todos os contentamentos dentro de você morrem. Você não deseja ter alguém para amar? Você não precisa ter alguém para amar? Não amaria ter alguém para amar? É melhor encontrar alguém para amar”.
Trailer de Um Homem Sério
Indo além, a mensagem do filme possui uma crítica interessante a vida comum. Àqueles que escolhem viver envolvidos por tradições e o ordinário, o fazem para se sentirem confortáveis e salvos, é mais tranquilo, não impõe tantos riscos. Mas aí é que reside o maior engano, pois desgraças acontecem com todos, e que na verdade a ajuda para superar o problema que for não está na religião e sim na força que cada um carrega dentro si. Esperar dos outros uma solução é sempre a pior saída, e isso o filme trabalha com maestria. Pois muitas vezes os ditos sábios podem não saber de nada, e descobrir que você condicionou boa parte de sua trajetória confiando em algo ilusório, seja talvez, a pior de todas as decepções.
Mais uma boa produção dos irmãos Coen, acredito que para alguns a trama possa parecer confusa e sem sentido, principalmente seu final. Contudo ele se apresenta bem realista, pois nem tudo acontece de maneira clara e objetiva. Os tempos costumam ser nebulosos e estranhos, principalmente quando se busca ser alguém sério e manter o bom senso diante de uma realidade que impõe o contrário. Lembrando que o filme concorre ao Oscar desse ano por melhor filme e roteiro original.
E você já assistiu ao filme? O que achou? Será que merece levar um Oscar?
Por Ingrid Heckler