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Olmo e a Gaivota

Filme mescla documentário, ficção e gravidez de forma impecável

Por Carla Braga - 10 Nov 2015 às 16:42h

Você já parou para pensar sobre o que se passa na cabeça de uma mulher grávida? A diretora mineira Petra Costa, ao lado da dinamarquesa Lea Glob, escancara uma questão simples, porém tão negligenciada nas mais diversas artes com Olmo e a Gaivota, o seu mais recente filme. A produção é um híbrido entre documentário e ficção e registra, de forma intimista e necessária, o período em que a atriz italiana Olivia Corsini esteve grávida do seu primeiro filho.

 

A temática é tão atípica em nossa sociedade que Petra sofreu uma onda de agressões verbais no perfil oficial do longa no Facebook após o seu discurso no Festival do Rio 2015, onde o filme recebeu o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Documentário. A simples fala “Às mulheres, no desejo de que nenhuma mulher brasileira seja vítima do machismo, físico ou verbal, e que toda mulher possa ter soberania sobre o próprio corpo” foi o bastante para tocar na ferida de muitos machistas e de pessoas contra o aborto. O que Petra fez? Criou o vídeo Meu Corpo, Minhas Regras, com a participação de vários atores. Se liga:

 

 

Muito bem, em Olmo e a Gaivota, Olivia está prestes a encenar a peça A Gaivota, de Tchekhov, ao lado do seu marido e ator Serge Nicolai, quando descobre que está grávida. A princípio, a atriz se julga capaz de trabalhar até os últimos meses de gestação, mas, rapidamente, “cai na real” com a notícia de que precisará ficar em repouso e percebe que estava apenas se iludindo. Desse modo, a italiana, outrora workaholic e sociável, se depara com uma solidão nunca vivida antes.

 

Confesso que nunca tive a imagem vívida de alguma grávida na minha cabeça, pois nunca convivi de perto com uma e não me recordo de ter visto uma retratada de forma real na ficção. Portanto, fui pega, completamente, de surpresa com Olivia, que revela ser uma mulher fascinante e, acima de tudo, humana. Em Olmo e a Gaivota, ela enfrenta um período de mudanças de humor constante e de exclusão do mundo de forma crua e real – afinal, como ela mesma diz, a vida que traz no ventre é quem “dita as regras do jogo” agora.

 

As diretoras foram muito competentes na hora de captar os momentos de intimidade entre Olivia e Serge, tornando palpável para os expectadores o amor, carinho e dinâmica existentes entre o casal. Desse modo, ficou fácil preencher as lacunas que levaram os dois até o momento da gravidez e entender como Serge se mantém sempre disposto a apoiar Olivia – até mesmo nos momentos justificáveis, porém de fúria e injustiças.

 

 

O corpo da mulher também é outro ponto alto na direção de Olmo e a Gaivota. Movimentando-se ou parada, Olivia é sempre retratada de forma quase lírica e cheia de intenções narrativas, algo já visto em Elena (2012), de Petra. As cenas da atriz no banho são, especialmente, lindas, assim como as que retratam as transformações do seu corpo; e a forma orgânica com que os vídeos do passado de Olivia transitam entre o presente também complementam as intenções das diretoras e ajudam a criar uma espécie de ciclo da vida.

 

Para a surpresa de muitos que estavam ao meu lado na sessão, imagino, nem sempre uma grávida está feliz e otimista com o seu estado na maior parte do tempo; e isso deve falar, diretamente, com quase todas as mulheres na face da Terra. Olmo e a Gaivota é revigorante nesse sentido, pois revela uma grávida humana, repleta de dúvidas e sentimentos agridoces, ao contrário do que comédias românticas, por exemplo, retratam nas raras vezes em que incluem uma grávida na sua trama.

 

O filme de Petra é impecável ao revelar uma mulher moderna e dona de si que nunca havia pensado muito em ter filhos, sentindo-se injustiçada e excluída, abruptamente, de tudo que lutou toda a vida para conquistar e, em seguida, transitando de uma fase de aceitação para uma de felicidade genuína, que brota aos pouquinhos, mas torna-se parte fundamental da sua existência. 

 

9.8

Incrível

Prós
  • Olivia Corsini humaniza de forma crua e necessária as grávidas
  • A temática é inovadora e envolvente
  • A trama mescla realidade e ficção de forma orgânica e muito bem sucedida
  • A fotografia e direção do filme são belíssimas
Contras
  • Como o filme não é complemente documentário, não dá para saber até que ponto alguns detalhes são verdadeiros

9.8

Incrível

Prós
  • Olivia Corsini humaniza de forma crua e necessária as grávidas
  • A temática é inovadora e envolvente
  • A trama mescla realidade e ficção de forma orgânica e muito bem sucedida
  • A fotografia e direção do filme são belíssimas
Contras
  • Como o filme não é complemente documentário, não dá para saber até que ponto alguns detalhes são verdadeiros
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